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Margens apertadas e guerra devem reduzir área da soja na safra 26/27

Margens apertadas e guerra devem reduzir área da soja na safra 26/27Soja deve ocupar 48,9 milhões de hectares na safra 2026/27. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Após um ciclo recorde em 2025/26, produtores já reduzem investimentos para a temporada 2026/27, enquanto consultorias do setor avaliam que o Brasil pode registrar estabilidade, ou até queda, na área plantada da oleaginosa pela primeira vez em quase duas décadas.

Em reportagem publicada pelo Valor, analistas apontam que a combinação entre preços mais baixos da soja e a disparada dos fertilizantes após a guerra no Oriente Médio deteriorou a relação de troca no campo e aumentou a cautela dos produtores na compra de insumos.

Segundo o consultor Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, a soja deve ocupar 48,9 milhões de hectares na safra 2026/27, abaixo dos 49 milhões registrados no ciclo atual. Caso o cenário se confirme, será a primeira retração de área desde a safra 2006/07.

“Não está descartada a redução de área para a soja, mas ela vai depender da decisão de cada produtor, considerando suas características de produção, como por exemplo, se utiliza área própria ou arrendada”, afirma Cogo.

Fertilizantes encarecem e compras atrasam

A guerra no Oriente Médio elevou os preços dos fertilizantes fosfatados, essenciais para a produção de soja, e alterou o ritmo das compras para a próxima safra. Segundo Cogo, os produtores adquiriram até agora 35% dos fertilizantes necessários para 2026/27. No mesmo período do ano passado, o índice era de 46%, enquanto a média dos últimos cinco anos ficou em 54%.

“Esse atraso agrava ainda mais a situação do produtor, pois ele terá um custo extra que não era esperado. Se a guerra acabar, algum recuo para os fertilizantes pode acontecer, mas o produtor terá um custo bem maior. Se as margens já estavam apertadas [em 2025/26], vão ficar ainda mais”, avalia Cogo.

Tomás Pernías, analista de inteligência de mercado da StoneX, afirma que a oferta de fosfatados caiu desde o início da guerra, principalmente devido às dificuldades logísticas enfrentadas por exportadores da região do Oriente Médio, como a Arábia Saudita. Ainda assim, ele avalia que não deve haver falta de produto no Brasil.

“A alta temporada de compras acontece na segunda metade do ano. Se o Estreito de Ormuz for reaberto ou se uma trégua na guerra acontecer, ainda há bastante tempo até essa janela de aquisições”, diz, acrescentando, porém, que os preços serão maiores, piorando a relação de troca com a soja.

Segundo levantamento da StoneX, o preço do MAP (fosfato monoamônico), utilizado na soja, subiu 22% desde o início do conflito.

Produtor reduz tecnologia, mas área ainda divide projeções

Apesar do cenário de pressão sobre custos, consultorias ainda divergem sobre o comportamento da área plantada no País. A AgRural avalia que a possibilidade de retração ganhou força neste ciclo, diante do maior endividamento e das margens mais apertadas.

“Quem está investindo em áreas novas está em um momento crítico, pois vai trabalhar com margem muito mais reduzida, devido aos preços deprimidos e ao custo altíssimo. É um dos cenários mais desafiadores dos últimos oito anos”, diz Rosi Cerrati, presidente do sindicato rural de Barreiras, no oeste da Bahia.

Ainda assim, Datagro e Safras & Mercado trabalham com expectativa de estabilidade ou leve avanço da área cultivada, sustentadas principalmente pela conversão de áreas de pastagem para a soja. As consultorias, porém, reconhecem que o produtor tende a reduzir investimentos em tecnologia e manejo diante da piora da rentabilidade.

“O grande ponto desta safra será a redução no uso de tecnologia nas lavouras. A relação de troca piorou muito. No ano passado, o produtor precisava de 17 sacas de soja para adquirir uma tonelada de ureia. Neste ano, esse número passou para 33,4 sacas”, acrescenta Rafael Silveira, analista da Safras.

 

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