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Desmate cria ilhas de vegetação e fragiliza Cerrado

Desmate cria ilhas de vegetação e fragiliza CerradoCerrado concentra a maior extensão de vegetação sob efeito de borda. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Vegetação fragmentada cresce 163% e abre caminho para degradação

Resumo:

  • O Cerrado tem a maior área de vegetação nativa exposta à degradação no Brasil, entre 17,7 milhões e 42,1 milhões de hectares (ha) em 2024, segundo o MapBiomas.
  • O bioma soma 957 mil fragmentos de vegetação nativa, com área média de 105 ha, e tem a maior extensão sob efeito de borda do país, entre 11 milhões e 32 milhões de ha, de acordo com o MapBiomas.
  • Goiás está entre os cinco estados que concentram 49% dos 3,41 milhões de fragmentos de vegetação nativa do Brasil, ao lado de Minas Gerais, Bahia, São Paulo e Paraná.
  • Entre 1986 e 2024, o número de fragmentos no país cresceu 45%, e o tamanho médio caiu 43%, de 287 ha para 163 ha, aponta o MapBiomas.
  • Corredores e ramificações, que ligam os fragmentos entre si, somam 1,7% da vegetação nativa brasileira, ou 9,4 milhões de ha, segundo o levantamento.
  • Para Dhemerson Conciani, do Ipam, a fragmentação aumenta a exposição da vegetação ao fogo, sobretudo em anos de eventos climáticos extremos.

 

Por André Garcia

O Cerrado é o bioma brasileiro com a maior área de vegetação nativa exposta à degradação. Em 2024, entre 17,7 milhões e 42,1 milhões de hectares (ha) estavam sujeitos a ameaças como incêndios, isolamento e efeitos da proximidade com lavouras, pastagens e áreas urbanas.

Os dados foram divulgados nesta quinta-feira, 29/10, pelo MapBiomas, que também aponta Goiás entre os cinco estados com maior número de fragmentos de vegetação nativa do país. Ao lado de Minas Gerais, Bahia, São Paulo e Paraná, o estado integra o grupo que concentra 49% dos 3,41 milhões de fragmentos identificados no Brasil.

A fragmentação ocorre quando áreas contínuas de vegetação são divididas em porções menores e isoladas. Segundo Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenador de Degradação do MapBiomas, a perda de conexão entre essas áreas afeta a dispersão e a reprodução das espécies nativas e aumenta o risco de extinções locais.

“Quanto mais fragmentada fica a paisagem, menor é a área média de seus fragmentos, e isso é muito ruim em termos ambientais porque aumenta drasticamente a exposição aos efeitos de borda e ao fogo, especialmente em anos de eventos climáticos extremos”, explicou.

Cerrado tem 957 mil fragmentos

O Cerrado é o segundo bioma com mais fragmentos de vegetação nativa, com 957 mil, atrás apenas da Mata Atlântica, com 1,38 milhão. No Cerrado, cada fragmento tem, em média, 105 hectares.

O bioma também concentra a maior extensão de vegetação sob efeito de borda, entre 11 milhões e 32 milhões de hectares. São faixas de até 150 metros de contato com lavouras, pastagens e áreas urbanas, onde a vegetação fica mais vulnerável ao vento, à radiação solar, à deriva de agrotóxicos e aos incêndios.

Até 24% da vegetação está exposta

Em todo o Brasil, a área de vegetação nativa exposta a pelo menos um fator de degradação variou de 53,3 milhões a 134,8 milhões de hectares em 2024, o equivalente a 10% a 24% do total. A diferença considera dois cenários de análise, um mais restritivo e outro mais abrangente.

A fragmentação também avançou nas últimas décadas. Entre 1986 e 2024, o número de fragmentos cresceu 45%, de 2,35 milhões para 3,41 milhões, enquanto o tamanho médio caiu 43%, de 287 para 163 hectares. Na Amazônia, o número de fragmentos aumentou 260%, acompanhado pela redução do tamanho médio de 2,7 mil para 662 hectares.

As bordas dos fragmentos somam entre 37 milhões e 102 milhões de hectares no País. Considerando a faixa de até 150 metros, 67% das áreas atualmente expostas aos efeitos de borda já apresentavam essa condição em 1986, indicando que parte importante do problema persiste há décadas.

Proporcionalmente, a Mata Atlântica é o bioma mais exposto à degradação, com 33% a 70% da vegetação nativa sujeita a pelo menos um dos fatores analisados.

Corredores ajudam a conectar a vegetação

Apesar da fragmentação, o levantamento identificou áreas que ajudam a manter a conexão entre remanescentes. Corredores e ramificações representam 1,7% da vegetação nativa brasileira, ou 9,4 milhões de hectares. Essas formas ligam os fragmentos entre si e podem amenizar os efeitos da degradação.

“As informações inéditas disponibilizadas e atualizadas sobre a fragmentação da vegetação nativa no Brasil são estratégicas para entender a dimensão do problema, evitar seu agravamento e inclusive orientar ações de restauração na busca de maior conectividade ecológica”, afirma Eduardo Vélez, pesquisador da GeoKarten e integrante do grupo de Degradação do MapBiomas.

A conectividade ecológica também está entre os temas da COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, realizada em Yerevan, na Armênia, desde 19 de outubro.

Saiba mais

O que é o MapBiomas? É uma iniciativa que reúne universidades, organizações não governamentais e empresas de tecnologia para monitorar as mudanças na cobertura e no uso da terra no Brasil. A rede produz mapas anuais desde a década de 1980, organizados em coleções. A Coleção 11 foi usada para atualizar o módulo de Degradação, que permite analisar fatores como borda, isolamento, fogo e corte seletivo da vegetação nativa entre 1986 e 2024 por país, estado, município, bacia hidrográfica e área protegida.

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