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Lula 4: o que muda para quem produz no campo

Lula 4: o que muda para quem produz no campoReeleição preserva a diplomacia comercial que abriu novos mercados. Foto: Mapa

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Boa parte das lideranças do agronegócio apostou em Flávio Bolsonaro. A Frente Parlamentar da Agropecuária chegou a declarar apoio oficial ao candidato. Mas a vitória de Lula impõe uma pergunta pragmática: o agro ganhou ou perdeu?

Para responder a essa pergunta, vamos analisar políticas que interessam diretamente a quem produz: abertura de mercados, crédito rural e apoio à agricultura familiar. E, sim, vamos falar de dívida também.

Mas comecemos pelos mercados internacionais, que trazem divisas para o País e recursos em moeda forte para o produtor. Desde 2023, o Brasil acumulou 700 aberturas comerciais em 99 destinos, segundo o Ministério da Agricultura, que ampliam as possibilidades de negócios. A lista inclui carne bovina para Vietnã e México, além de sorgo e gergelim para a China.

Essa diversificação ganha peso diante das tensões comerciais entre Estados Unidos e China. Um eventual alinhamento aos norte-americanos poderia colocar em risco a relação comercial sino-brasileira, que sozinha movimentou US$ 44,06 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, mais de cinco vezes o valor vendido aos norte-americanos no período.

Graças à diversificação de mercados, as exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 133,6 bilhões nos nove primeiros meses de 2026, mesmo com as tarifas do governo Donald Trump. Durante a campanha, Marcos Jank, pesquisador do Insper, defendeu relações comerciais com diferentes países, sem subordiná-las a alinhamentos políticos.

A reeleição mantém essa orientação comercial e as perspectivas de novas aberturas em exportações. E isso pode ajudar a explicar a diversidade de posições dentro do agro em Mato Grosso, onde Flávio Bolsonaro recebeu cerca de 66% dos votos válidos.

Em áudios atribuídos a Elusmar Maggi Scheffer, sócio do Grupo Bom Futuro, o empresário comemorou a vitória de Lula. Segundo o AgFeed, ele já havia elogiado financiamentos para armazenagem oferecidos durante governos do PT.

Pequeno produtor

Para os pequenos produtores, o governo Lula ampliou a agenda além do financiamento. A recriação do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, em 2023, veio acompanhada da retomada das compras públicas de alimentos e de programas de modernização das propriedades.

O Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 previu R$ 85,2 bilhões em crédito pelo Pronaf, com juros de 2% ao ano para a produção de alimentos e de 1% para sistemas agroecológicos, orgânicos e produtos da sociobiodiversidade.

Desde a retomada em 2023, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) investiu cerca de R$ 2 bilhões em compras de aproximadamente 140 mil agricultores familiares. O percentual mínimo destinado ao segmento nas compras federais para a alimentação escolar subiu de 30% para 45%. Crédito, compras públicas e acesso a equipamentos ajudam a sustentar a renda de quem produz em menor escala.

E o endividamento?

Há, entretanto, um problema urgente que atravessou o governo Lula e que de antes do atual mandato. Na pandemia, a alta das commodities estimulou investimentos e empréstimos que se mostraram pesados demais depois, quando veio a alta dos fertilizantes em 2022, seguida pelo recuo dos preços de soja e milho e pelos juros elevados.

Essa combinação comprimiu as margens e agravou as dívidas dos produtores. Segundo estudo da Cogo Inteligência em Agronegócio, os preços reais recebidos pelo setor subiram 72% entre 2019 e 2021, mas recuaram 24% até 2025. A taxa média de crédito rural para pessoas físicas passou de 6,2% ao ano, em 2020, para 12,2%, em 2025.

O governo editou em julho a MP nº 1.376, com linhas para renegociação. E o Plano Safra 2026/2027 prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial. O desafio do quarto mandato será aliviar a pressão financeira e restabelecer condições para o produtor investir.

E também apoiar o setor diante do novíssimo risco que há no horizonte. A NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, estima probabilidade superior a 83% de um El Niño forte ou muito forte até o primeiro trimestre de 2027.

Para o produtor, é hora de olhar adiante, revisar o planejamento da safra e se preparar para os efeitos do fenômeno sobre chuvas e produtividade. Para o governo, é hora de reforçar e ampliar o apoio a um setor estratégico para a segurança alimentar e a balança comercial do País.