HomeEcologia

Desmate químico explode e cresce 800% em MT

Desmate químico explode e cresce 800% em MTEm 2024, desmate químico destruiu 81 mil hectares do Pantanal mato-grossense. Foto: Polícia Civil

Brasil bate recorde de liberação de agrotóxicos em 2024
Redução da distância para aplicar agrotóxico pode afetar produtividade
Indea tem 15 dias para fornecer dados sobre comercialização de agrotóxicos em MT

O número de alertas de desmatamento químico em Mato Grosso explodiu em 2025. Entre janeiro e 10 de outubro, foram detectados 621 possíveis casos de degradação por uso de agrotóxicos para eliminar vegetação nativa — um aumento de 800% em relação a todo o ano passado, quando ocorreram apenas 69 alertas.

Os dados foram obtidos pela Repórter Brasil junto a uma ferramenta inédita de monitoramento via satélite do governo do estado do Mato Grosso. O sistema identifica mudanças graduais na coloração da mata – do verde saudável para tons marrom-avermelhados – , e padrões regulares que indicam ação química, em vez de corte ou queimada.

De acordo com o levantamento, cerca de 149 mil hectares podem ter sido devastados com a aplicação de produtos desfolhantes desde 2021 — o equivalente à área da cidade de São Paulo. A destruição se espalha pelos três biomas de Mato Grosso: Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) ressalta que os alertas são preliminares e precisam ser confirmados em vistoria de campo antes de gerar autuação. Mesmo assim, uma nota técnica da própria secretaria, citada pela reportagem, mostra que 84% dos proprietários que receberam alertas em 2024 haviam adquirido agrotóxicos.

“Os resultados evidenciam elevada correspondência entre os alertas e a efetiva utilização desses insumos nos imóveis”, aponta o documento.

Mapa da destruição

A Amazônia concentra a maior parte dos registros deste ano, com 582 ocorrências e 6,6 mil hectares afetados. O Cerrado teve 34 casos (544 hectares) e o Pantanal apenas um (2 hectares). Segundo a Sema, a combinação entre monitoramento por satélite e cruzamento de informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR), licenças, planos de voo e receituários agronômicos permitem “detecção mais precisa e eficaz dos danos, subsidiando a responsabilização e as ações de proteção dos biomas”.

Estratégia criminosa

Para o pesquisador Maelison Neves, do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da UFMT, o desmatamento químico tem se tornado uma nova estratégia para escapar da fiscalização.

“Faz parte da tática de alguns produtores deixar o desmate menos visível. Os produtos químicos eliminam a vegetação sem deixar rastros e ainda preservam a madeira mais valiosa para o comércio ilegal”, explica.

O uso de agrotóxicos para suprimir vegetação é crime ambiental previsto na Lei de Crimes Ambientais e no Código Florestal. Além da perda de cobertura vegetal, provoca contaminação do solo, da água e da fauna, atingindo inclusive comunidades rurais próximas.

Abertura de novas áreas

Uma fonte do governo estadual ouvida pela Repórter Brasil afirmou que o desmatamento químico está diretamente ligado à abertura de áreas de pastagem para gado. Além disso, os produtos também vêm sendo usados para ampliar lavouras e controlar a regeneração natural em áreas já desmatadas.

A combinação entre novas tecnologias e a liberação recorde de agrotóxicos tem agravado o problema. “Com drones e ampla oferta de produtos químicos, qualquer pessoa pode eliminar vegetação nativa de forma silenciosa e difícil de rastrear”, alertou a fonte.

 

LEIA MAIS:

Desmatamento cresce 27% na Amazônia; MT lidera ranking

Proibido uso de crédito rural para desmatamento

Fogo causou quase um quarto do desmatamento na Amazônia

Agropecuária é responsável por 97% do desmatamento no Brasil

MP denuncia grupo por desmate químico de 81 mil hectares no MT

Recuperação de área comprometida por desmate químico é improvável

Efeitos de desmate químico podem ser sentidos em até 50 anos