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Recuperação de área comprometida por desmate químico é improvável

Recuperação de área comprometida por desmate químico é improvávelInvestigações foram motivadas por denúncia anônima. Foto: PJC

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Por André Garcia

A venda das 11 fazendas que Claudecy Oliveira Lemes possui na região de Barão de Melgaço (104 km de Cuiabá), não cobre nem 15% do valor das multas e da reparação do dano ambiental que ele teria causado ao Pantanal. Ao mesmo tempo, o pagamento integral dos R$ 5.2 bilhões devidos pelo fazendeiro não garante a recuperação de 81 mil hectares comprometidos por desmate químico, que é considerada quase impossível.

É o que explicam especialistas ouvidos pelo Gigante 163, ao falarem sobre o lastro de destruição deixado por 240 toneladas de produtos químicos despejados sobre a área. Como já mostramos, os efeitos de 25 defensivos aplicados irregularmente podem ser observados por até 50 anos, como no caso de um dos componentes do 2,4-D.

“A primeira coisa é tentar recompor essa área, o que, se for possível, levará no mínimo 30 anos. Espero que essa multa seja paga e que o agro tenha mais consciência sobre alternativas para produção em larga escala”, diz o médico, doutor em Saúde Coletiva e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Wanderlei Pignati.

De acordo com o engenheiro agrônomo e técnico da Empaer, Jackson Ferreira da Silva, o impacto dos produtos deve ser monitorado por um longo período, garantindo o acompanhamento da evolução dos danos causados. Além disso, é preciso investir no repovoamento das espécies vegetais nativas.

“Tecnicamente é um trabalho quase inviável. O que se pode fazer é tentar criar um ambiente propício para que essa plantas se regeneram naturalmente e, se possível, desenvolver projetos para a regeneração artificial, por meio do semeio das espécies”, explica ele ao classificar o desafio como “descomunal”, devido a extensão da área afetada.

Para piorar o cenário, segundo a engenheira agrônoma Fran Paula, a dimensão da contaminação é mais ampla do que a área atingida. Doutoranda em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), ela explica que isso ocorre por conta da pulverização aérea.

“As dimensões do dano causado por esse crime são imensuráveis. Esse agrotóxico pode contaminar para além do alvo a que se destina, o solo e as águas, sejam elas superficiais ou subterrâneas e, ao contrário do que a indústria química divulga, eles não se degradam de forma acelerada”, explica.

Penalidades

Localizadas integralmente no Pantanal, as propriedades de Claudecy ocupam uma área de cerca de 277 mil hectares. Conforme a Polícia Judiciária Civil (PJC), que conduziu investigação contra ele, os bens têm preço estimado de R$ 775,6 milhões, considerando avaliação de mercado de imóveis similares à venda na região.

Apenas as multas referentes aos autos de infração correspondem a R$ 2.8 bilhões, maior penalidade aplicada em Mato Grosso a um único produtor. Somado ao custo da reparação do dano ambiental, o número chega aos R$ 5,2 bilhões que agora o pecuarista deve.

No total, a Sema-MT aplicou nove termos de embargo e interdição contra imóveis de Claudecy, que é reincidente em crimes ambientais. Além disso, suas fazendas foram arrestadas e sequestradas. A finalidade da indisponibilidade de bens é suprir parte do prejuízo e reparar o dano ambiental.

Na última semana, o fazendeiro se manifestou perante o Juízo do Núcleo de Inquéritos Policiais da Comarca de Cuiabá e ofereceu assistência ao administrador judicial nomeado para gerir as áreas embargadas.

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