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Dieta criada em fazenda de MT reduz em 77% a emissão de metano bovino

Dieta criada em fazenda de MT reduz em 77% a emissão de metano bovinoMárcio Jorge e a ração desenvolvida em sua propriedade. Foto: Arquivo Pessoal

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Enquanto o mundo discute como frear o aquecimento global, um engenheiro florestal do Mato Grosso conseguiu um feito raro: reduzir de 261 para apenas 60 gramas a carga diária de metano expelida por animal no campo.

A fórmula, que ataca o problema no rúmen (o primeiro compartimento do estômago dos bovinos, onde ocorre a fermentação dos alimentos), não só prova que a pecuária brasileira pode ser protagonista da agenda ambiental, como já atrai o interesse direto do Oriente Médio e será o grande destaque de uma conferência internacional no próximo mês.

A pesquisa detalhando a redução de 77% nas emissões será apresentada na EAAP-ASAS Conference on Livestock Farming and the Environment: Emissions and Solutions 2026. O interesse global é real e prático: países do Oriente Médio já iniciaram diálogos para levar a inovação brasileira para suas fronteiras.

“Alguns deles já vieram por aqui ver como tudo funciona e se interessaram realmente, mas as conversas continuam porque transferência de tecnologia precisa ser algo muito bem dialogado”, revela o pecuarista e professor de química Márcio Jorge, criador da solução.

A ciência da simplificação

O que o mundo verá na conferência internacional é fruto de uma jornada que começou em 1994, no interior de Mato Grosso. Márcio Jorge, que além de pecuarista é engenheiro florestal e professor de química, buscava uma solução prática para simplificar a alimentação do gado, reduzir custos e facilitar o manejo.

O plano era criar uma dieta sem volumoso (como capim ou silagem misturado a aditivos), baseada em ração seca.

“Eu queria facilitar o trabalho na fazenda. Menos máquina, menos custo e menos complicação”, relembra. Como não vinha da pecuária tradicional, ele estudou a fundo os gases do rúmen para criar algo novo. “Eu não sabia nada de boi. Só queria criar gado, mas tudo era caro e complicado. Foi preciso insistir bastante e aprender com os erros”, conta.

Qual é o segredo?

A explicação para o sucesso está na química digestiva. No sistema tradicional, a digestão gera grandes quantidades de hidrogênio, que vira metano. A dieta de Márcio Jorge, que pode chegar a 97% de milho em sua composição, reorganiza os nutrientes e utiliza uma formulação inédita com compostos que neutralizam as reações internas. Isso estabiliza o ambiente digestivo mesmo sem fibra — algo que, até décadas atrás, era considerado impossível.

Os resultados validados pelo Instituto de Zootecnia de São Paulo mostram que a queda de 77% nas emissões é vital, já que o metano é 28 vezes mais potente que o CO₂ e a agropecuária concentra mais de 75% dessas emissões no Brasil.

“O desempenho é igual à dieta regular. O que muda mesmo é manejo, que fica muito mais simples, econômico e com menos impacto ambiental”, explica. Na prática, o sistema pode reduzir em até 90% a demanda por maquinário e mão de obra no confinamento.

Na prática, o sistema simplifica o manejo, reduz a necessidade de máquinas e pode diminuir em até 90% a demanda por mão de obra e maquinário no confinamento.

Reconhecimento e escala

A solução para resolver o problema pessoal deu tão certo que levou a criação e abertura de uma empresa em 2006, a MJ Nutrição Animal. Com a chegada ao mercado e o registro no Ministério da Agricultura, veio a atenção internacional e o reconhecimento dentro do Brasil. O sistema já foi aplicado em quase 500 mil animais.

“Já foram publicados uns cinco ou seis estudos falando sobre nós, com pesquisadores de dentro e fora do Brasil”, diz Jorge.

Apesar do passaporte carimbado para a conferência internacional de 2026, o pecuarista mantém o pé no chão sobre os desafios internos.

“Eu fico muito feliz com o processo porque foi algo que começou de um jeito e se transformou em um trabalho muito bem recebido, mas acredito que ainda será necessário ter algumas mudanças públicas para tornar essa solução mais popular para todos”, destaca.

Para Márcio Jorge, o projeto é um manifesto de que o agronegócio brasileiro é parte da solução para a crise climática.

“Por muito tempo resumiam o agronegócio à produção de alimentos a qualquer custo. Na prática, a conversa já não é mais essa há muito tempo. Nós também sentimos as mudanças em clima, água e vegetação. É um setor que move muito dinheiro, mas também envolve muito amor porque é custoso demais. Chegar em uma solução que nos ajude a manter nosso trabalho e colaborar com o meio ambiente é motivo de muito orgulho. Espero que, juntos, possamos ir ainda mais longe”, celebra.

Fonte: Pará Terra Boa