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El Niño expõe atraso do agro na adaptação climática, diz Assad

El Niño expõe atraso do agro na adaptação climática, diz AssadFoto: Embrapa

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Resumo

  • O pesquisador Eduardo Assad (FGV) alerta que um El Niño forte pode provocar a perda de até 32 milhões de toneladas de grãos (10% da safra esperada).
  • O maior desafio não é o clima em si, mas a lentidão na preparação do setor para eventos extremos, agravada pelo alto endividamento dos produtores.
  • A projeção de crescimento de 1,5% na área plantada não impede, para Assad, as perdas causadas pelo clima, repetindo o cenário observado na safra 2023/24.
  • Ele defende práticas sustentáveis como plantio direto, aprofundamento de raízes, integração (ILP/ILPF) e cultivares de ciclo médio levam de 3 a 4 anos para estruturar o solo e reduzir prejuízos.
  • Assad diz que é preciso tratar o seguro rural como investimento e aplicar o Código Florestal para proteger o regime de chuvas e criar ativos de carbono.
  • O especialista critica a ideia de que o Brasil é uma “potência agroambiental” uniforme, destacando que os dados do Norte mascaram a degradação em estados como MG, GO e BA.

A confirmação de um evento do fenômeno El Niño de forte intensidade pode impor graves prejuízos à agricultura brasileira. Em um cenário no qual a safra de soja e milho está projetada para render cerca de 320 milhões de toneladas, as perdas em potencial chegam a 32 milhões de toneladas (10% do total). O alerta é do pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em agroclimatologia, Eduardo Assad em entrevista ao Estadão.

Segundo o pesquisador, o maior desafio do setor não é a ocorrência do fenômeno em si, mas a lentidão na preparação dos sistemas produtivos para enfrentar as transformações do clima. O risco ganha contornos ainda mais críticos porque coincide com um momento de elevado endividamento dos produtores rurais, o que limita a capacidade financeira de resposta do agronegócio.

Com base no histórico recente, o pesquisador recorda que o El Niño de 2023/2024 causou quebras de até 10% na soja e no milho no Norte, Nordeste e Sudeste. Na visão de Assad, a projeção de crescimento de 1,5% na área plantada para este ano não será suficiente para anular o impacto do clima.

“Em 2023/24 também houve aumento de área, e isso não impediu perdas entre 7% e 10% na produção. Agora, uma coisa é importante: se esse aumento ocorrer pela conversão de pastagens degradadas, e não de desmatamento, ótimo”, disse Assad;

Soluções existem, mas exigem tempo

O pesquisador enfatiza que não há mais tempo para o produtor evitar perdas na safra atual, pois as tecnologias de adaptação levariam de três a quatro anos para estruturar o solo.

“Na agricultura, as tecnologias para enfrentar eventos climáticos extremos existem há mais de 35 anos, mas não são adotadas de um dia para o outro; levam de três a quatro anos. Mesmo produtores que adotaram práticas sustentáveis tiveram perdas em eventos extremos. Só que perderam cerca de 15%. Quem não fez nada perdeu mais de 25%”, revela.

Entre as medidas que defende há décadas, Assad lista:

  • Aprofundamento de raízes: para buscar água em camadas profundas do solo;
  • Manejo de solo: uso de plantio direto, palhada e integração com gramíneas (como braquiária);
  • Sistemas integrados: expansão integração lavoura-pecuária (ILP) e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).
  • Cultivares de ciclo médio: que, segundo ele, resistem melhor a veranicos do que as variedades superprecoces.

“Essas plantas fazem fotossíntese muito rapidamente e transpiram muito mais. Se vier um veranico de 10 ou 15 dias durante um El Niño forte, elas vão sofrer. A gente propõe outro caminho: trabalhar com cultivares de ciclo médio, que suportam melhor essas oscilações climáticas. Aí o produtor diz: ‘Mas vou perder a safrinha’. E eu respondo:’ você quer perder a safrinha ou quer perder a fazenda’?”

Críticas ao seguro rural e ao mito “agroambiental”

Na avaliação do pesquisador da FGV, o poder público erra ao tratar o seguro rural como despesa fiscal, em vez de um investimento essencial.

Ele defende também que o cumprimento do Código Florestal é o maior aliado do produtor, pois a preservação de nascentes e matas ciliares garante o regime de chuvas.

“Com a consolidação do mercado de carbono, essas áreas tendem a ganhar ainda mais valor econômico. A reserva legal deixa de ser vista como um custo e passa a representar um ativo econômico. O mundo precisa remover carbono da atmosfera para enfrentar as mudanças climáticas”, defende.

Por fim, Assad contesta o discurso de que o Brasil seja uma “potência agroambiental” homogênea. Para ele, afirmar que o País preserva 60% de suas florestas é usar dados da Região Norte para mascarar a realidade degradada de estados como Minas Gerais, Goiás e Bahia.

Com a projeção de que o aumento de 2°C na temperatura global ocorra já em 2040, o especialista conclui que a margem de reação da agricultura brasileira está se esgotando rapidamente.

“Esperar o problema chegar nunca foi uma estratégia inteligente.”