Por André Garcia
Tradicionalmente, o segundo trimestre funciona como uma janela de oportunidade para aquisição de insumos, com condições mais favoráveis de negociação. Neste ano, no entanto, esse padrão foi alterado, e a alta nos preços dos fertilizantes, somada ao risco geopolítico, deve manter o mercado pressionado ao longo de 2026.
Segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira, 23/4, pela StoneX, empresa de inteligência de mercado, a combinação de conflitos no Oriente Médio, gargalos logísticos e restrições na oferta mudou a dinâmica do setor e reduziu a previsibilidade.
“A combinação entre redução temporária da produção em alguns países, entraves logísticos no Estreito de Ormuz e a forte escalada de preços diminuiu a probabilidade de o período se consolidar como um momento favorável para compras”, afirma o analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Tomás Pernías.
No mercado de nitrogenados, a volatilidade segue elevada. Mesmo com a reabertura parcial de rotas estratégicas, a expectativa é de normalização lenta. A persistência de atrasos, contratos represados e limitações no transporte marítimo deve continuar sustentando os preços nos próximos meses.
Custo alto reduz poder de compra
Com custos mais altos e margens pressionadas, produtores tendem a adiar aquisições ou reduzir volumes, aumentando a exposição às oscilações de mercado. A fragilidade do poder de compra foi evidenciada por pesquisa do Farm Bureau, realizada entre 3 e 11 de abril, com mais de 5 mil produtores.
Segundo o levantamento, entre o início das tensões e a primeira semana de abril, os preços FOB da ureia negociada em Nova Orleans avançaram cerca de 47%, deteriorando o poder de compra. Com isso, cerca de 70% dos entrevistados afirmam não ter capacidade para adquirir todo o volume necessário de fertilizantes.
“Cerca de 94% dos entrevistados relataram que sua situação financeira piorou ou permaneceu inalterada em relação ao ano anterior, o que influencia não apenas as decisões de compra, mas também os níveis de aplicação e até a definição das áreas plantadas”, observa Pernías.
Oferta restrita limita queda nos preços
Nos fosfatados, a situação é ainda pior. A oferta global permanece limitada por entraves na produção e no escoamento, além de custos elevados de matérias-primas como amônia e enxofre. Esse conjunto de fatores reduz a possibilidade de quedas mais expressivas nos preços e aumenta o risco de retração da demanda ao longo do ano.
Já no mercado de potássio, as condições relativas de compra ainda são menos restritivas, mas também cercadas de incertezas. Com margens comprimidas, há tendência de priorização de outros nutrientes, o que pode levar ao adiamento das compras de cloreto de potássio.
Decisão fica mais difícil na safra 2026
Diante disso, o produtor passa a operar em um ambiente mais desafiador, no qual as decisões envolvem escolhas difíceis: assumir custos mais elevados para garantir a produtividade ou reduzir aplicações e aumentar o risco na lavoura. Em casos mais críticos, os dois movimentos podem ocorrer ao mesmo tempo.
“O gerenciamento de riscos e a gestão eficiente dos custos serão determinantes para a sustentabilidade do negócio agrícola em 2026”, conclui Pernías.
Com a proximidade do segundo semestre, a tendência é de redução do espaço para adiamentos. Mesmo sem condições ideais, a necessidade de garantir insumos para a safra deve forçar negociações em um mercado ainda pressionado, consolidando um cenário de margens mais apertadas e maior exposição ao risco.
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