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Como a amônia verde pode definir o futuro dos fertilizantes

Como a amônia verde pode definir o futuro dos fertilizantesUm dos exemplos está na produção de fertilizantes nitrogenados. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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Por André Garcia

Para além de expor vulnerabilidades, o conflito no Oriente Médio pode mudar a lógica de competitividade no mercado de fertilizantes. Com os custos de produção cada vez mais afetados pelo preço do gás natural e da energia renovável, soluções como a amônia verde passam a ocupar o centro da disputa entre países produtores.

Em artigo publicado nesta quarta-feira, 22/4, a analista ESG da StoneX Brasil, Graziella Salvoni, aponta que, ao avançar nessa direção, o Brasil pode reduzir sua exposição a choques externos e, ao mesmo tempo, reposicionar seu agronegócio em uma economia cada vez mais orientada por carbono.

“Mais do que uma agenda ambiental, trata-se de uma oportunidade estratégica: reduzir a dependência externa, aumentar a segurança de suprimento e, ao mesmo tempo, reposicionar o Brasil em uma cadeia global que caminha rapidamente para a descarbonização”, ressalta Salvoni.

Energia redefine o custo

Um dos exemplos está na produção de fertilizantes nitrogenados, especialmente a amônia, altamente intensiva em gás natural. Nesse contexto, a elevação do custo do insumo altera a lógica econômica da produção global e reduz parte da vantagem da importação.

Com isso, cresce a relevância de rotas alternativas baseadas em energia renovável. A amônia verde, produzida a partir de hidrogênio obtido via eletrólise, e a amônia azul, que incorpora captura de carbono, passam a ganhar espaço em um mercado cada vez mais influenciado pela dinâmica energética.

Hoje, a diferença de custo ainda é um fator limitante. A amônia convencional, baseada em gás natural, gira em torno de US$ 750 por tonelada na Europa, enquanto a versão verde pode alcançar cerca de US$ 1.000, dependendo do custo da energia e da escala dos projetos. Projeções indicam, porém, que essa diferença tende a diminuir até 2030.

Impactos diretos

Sob a ótica de carbono, os benefícios são significativos. A produção de amônia, base dos fertilizantes nitrogenados, responde por cerca de 1% a 2% das emissões globais de CO₂, devido ao uso intensivo de gás natural, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).

No campo, a aplicação desses insumos está diretamente associada às emissões de óxido nitroso (N₂O), que representam entre 30% e 50% das emissões agrícolas globais, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

“A adoção de rotas mais sustentáveis na produção de fertilizantes, combinada com práticas que aumentem a eficiência no uso de nutrientes no campo, permite atuar simultaneamente em duas frentes: reduzir emissões na indústria e mitigar emissões diretas na produção agrícola”, explica Salvoni.

Crise acelera mudança

O movimento ocorre em um contexto de pressão sobre o mercado global de insumos. A intensificação do conflito no Oriente Médio comprometeu rotas estratégicas de transporte e elevou os preços do petróleo e do gás natural, impactando diretamente os custos de produção e logística dos fertilizantes.

Como resultado, o cenário combina restrição de oferta com aumento de preços, ampliando a instabilidade. Em países como o Brasil, onde cerca de 85% dos fertilizantes são importados já industrializados, o impacto tende a ser ainda mais direto, mantendo o produtor exposto a oscilações externas.

 

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