O garimpo ilegal de ouro no Brasil entrou em uma fase de sofisticação tecnológica alarmante com a adoção do cianeto em processos clandestinos de extração. Segundo investigação publicada pela Folha de S.Paulo, a substância — cujo uso é controlado pelo Exército — já foi detectada em operações ilegais no Amazonas, Bahia, Maranhão, Mato Grosso e Roraima, sinalizando uma mudança estrutural no perfil do crime ambiental no País e uma ameaça ao agronegócio brasileiro.
A migração para o cianeto é impulsionada pelo lucro. Por meio do método de lixiviação, os criminosos conseguem recuperar até 90% do ouro presente nos rejeitos, quase o dobro da eficiência do mercúrio tradicional, que alcança cerca de 50%.
O maior perigo para o setor produtivo reside na persistência da contaminação. Diferente de outros poluentes, o cianeto é altamente reativo e, em caso de vazamentos — frequentes em laboratórios improvisados —, pode atingir aquíferos subterrâneos. Segundo a organização Earthworks, essa contaminação pode durar décadas, inutilizando fontes de água usadas para irrigação e dessedentação animal.
Além disso, se manuseado incorretamente, diz a organização, o cianeto pode se transformar em gás, matando seres humanos em poucos minutos — a substância era usada pelos nazistas nas câmaras de gás durante o Holocausto.
Historicamente, o mundo já assistiu ao potencial destrutivo dessa substância no campo: no México, em 2014, o derramamento de solução de cianeto devastou áreas agrícolas e comprometeu sistemas de abastecimento.
A contaminação de rios que atravessam zonas rurais pode provocar mortandade em massa de peixes e gado, além de comprometer a certificação de propriedades que seguem protocolos rígidos de conservação.
Ou seja, para o produtor rural, o uso dessa substância em garimpos vizinhos significa o risco real de ver sua terra e sua produção contaminadas por um veneno letal que afeta organismos vivos em minutos.
Clandestinidade e falta de controle
Para Roberto Reis Monteiro Neto, diretor técnico-científico da PF, o uso do insumo indica métodos mais complexos e organizados. Em 2025, um laboratório clandestino foi desarticulado na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, evidenciando o impacto direto sobre territórios protegidos.
A repressão ao crime enfrenta um obstáculo inédito: o passivo químico. Laboratórios clandestinos acumulam volumes de rejeitos contaminados sem qualquer controle. Em algumas ações, os agentes da PF não puderam sequer apreender os resíduos devido ao risco imediato à vida, deixando para trás um passivo ambiental de difícil destinação e alta periculosidade.
Embora o Exército Brasileiro reitere que a venda de cianeto exige registro e autorização prévia, as investigações confirmam que o insumo está sendo adquirido de forma clandestina por organizações criminosas.
Para o agronegócio, que depende da imagem de sustentabilidade e segurança sanitária para acessar mercados exigentes na Europa e Ásia, a presença de uma substância associada a campos de extermínio nazistas e desastres ambientais globais no território brasileiro é uma “bomba relógio” reputacional.
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