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Falta de rastreio de carne e soja ameaça vendas à Europa

Falta de rastreio de carne e soja ameaça vendas à EuropaNa soja, 26% das empresas não têm rastreabilidade. Foto: Ênio Tavares

Mudança de regras leva a saída de empresas da Moratória da Soja
Estudo revela despreparo do agro brasileiro frente às regras da UE
75% da soja da Amazônia e do Cerrado tem indício de crimes ambientais

Por André Garcia

Das nove commodities cobertas pelo EUDR, ou lei antidesmatamento, carne e soja apresentam os piores indicadores de rastreabilidade e compromisso ambiental. Os números são do relatório Forest 500, da organização britânica Global Canopy e acendem um alerta por se tratar justamente das de maior peso exportador brasileiro para a Europa.

Na carne bovina, apenas 39% das 500 empresas analisadas têm compromisso público contra o desmatamento, e só 30% contam com mecanismo de rastreabilidade. Nenhuma delas demonstrou avanço em relação a 2024.

Na soja, 26% têm rastreabilidade. Em ambos os setores, apenas 7% das empresas reportam mais da metade de seus volumes como livres de desmatamento.

“As empresas que não tomam medidas contra o desmatamento estão sinalizando sua falta de preparo aos investidores e ao mercado como um todo”, afirma Niki Mardas, diretor executivo da Global Canopy.

O recuo da soja 

Os números são globais, mas expõem desafios diretos para o Brasil. O País é responsável por 18,8% do desmatamento causado pelo consumo europeu de commodities agrícolas, a maior fatia entre todos os exportadores, e concentra sua exposição justamente em gado e soja.

Para piorar o cenário, em janeiro de 2026, a Abiove, associação que reúne as principais tradings de soja do País, saiu da Moratória da Soja Amazônica. A iniciativa, em vigor desde 2006, impede a comercialização de soja produzida em áreas desmatadas da Amazônia após julho de 2008.

Entre os comerciantes, fabricantes e varejistas da Forest 500, 27 citam a moratória como parte de seus compromissos para a soja. Sete grandes redes de supermercados europeias presentes no relatório assinaram carta aberta pedindo que os cinco membros da Abiove, ADM, Bunge, Cargill, Cofco e Louis Dreyfus, reafirmem publicamente o compromisso com a data de corte de 2008 para todas as suas compras, diretas e indiretas.

Pressão financeira

O sinal, certamente será levado a sério por todo o mercado. Na prática, a pressão que começa nas grandes corporações desce pela cadeia até o produtor rural: quem fornece para uma empresa sem compromissos ambientais está cada vez mais exposto ao mesmo risco que ela.

O Forest 500 recomenda que países produtores, entre eles o Brasil, limitem o financiamento público a empresas de alto risco que não reportam transparentemente suas práticas, desenvolvam sistemas nacionais de rastreabilidade e invistam em iniciativas em regiões de alto risco, como o Cerrado e a Amazônia.

“As instituições financeiras fornecem trilhões de dólares às empresas da lista Forest 500 e estão expostas a grandes riscos decorrentes da degradação ambiental. Elas estão em uma posição única para engajar as empresas e impulsionar ações em prol do clima e da natureza”, destaca o relatório.

 

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