Por André Garcia
Quinze plantas frigoríficas da Amazônia mato-grossense, hoje habilitadas a exportar para a União Europeia, apresentam baixo controle sobre o desmatamento em suas cadeias de fornecimento. Segundo levantamento do Radar Verde, nenhuma delas apresenta evidências públicas de que cumpre a nova regulamentação europeia, que passará a exigir rastreabilidade completa da produção no próximo ano.
Pertencentes a oito empresas, essas plantas têm capacidade de abate de 11.250 animais por dia. De acordo com os critérios do estudo, 13 apresentam baixo nível de controle sobre a cadeia de fornecimento, enquanto duas foram classificadas com nível muito baixo. Nenhuma das empresas respondeu ao questionário enviado pelo Radar Verde para apresentar comprovações sobre o controle socioambiental.
O principal ponto de fragilidade está no monitoramento dos fornecedores indiretos. Embora 12 plantas demonstrem algum nível de controle sobre fornecedores diretos, nenhuma apresentou evidências robustas, como auditorias independentes, que comprovem o acompanhamento das fazendas responsáveis pelas etapas anteriores da criação dos animais.
Essa lacuna permite a chamada “lavagem de gado”, quando animais oriundos de áreas com desmatamento passam por propriedades intermediárias antes de serem vendidos aos frigoríficos, dificultando a rastreabilidade ambiental da produção.
O levantamento também aponta que o risco de novo desmatamento nas zonas potenciais de compra dessas empresas varia de 31 mil a 2,8 milhões de hectares, indicando a exposição das cadeias produtivas a áreas sob pressão ambiental.
Europa eleva exigência sobre rastreabilidade
A nova regulamentação europeia contra o desmatamento exigirá que empresas comprovem, com dados e geolocalização, que produtos como a carne bovina não foram produzidos em áreas desmatadas. A norma deverá entrar em vigor a partir de 30 de dezembro de 2026 para grandes empresas e de 30 de junho de 2027 para pequenas e microempresas.
Mesmo representando uma parcela menor das exportações brasileiras de carne bovina, o mercado europeu vem ganhando relevância. Em 2025, o bloco importou 128,9 mil toneladas do produto, movimentando cerca de US$ 1,06 bilhão e registrando crescimento de 132,8% em relação ao ano anterior.
Recomendações da análise
Diante desse cenário, o estudo aponta caminhos para avançar na rastreabilidade da cadeia da carne bovina.
Um deles é priorizar a integração de bases de dados já existentes, como os registros de movimentação de gado (GTA), os cadastros de propriedades rurais (CAR) e informações sobre desmatamento e áreas embargadas, permitindo aproximar a análise do risco de desmatamento ao nível das transações e ampliar a visibilidade sobre fazendas fornecedoras indiretas.
Além disso, avaliações comparativas entre empresas, como o próprio Radar Verde, podem ajudar a orientar ações de fiscalização, acordos de compartilhamento de dados e incentivos de mercado, direcionando esforços para as regiões e empresas onde os riscos são mais elevados e as melhorias podem gerar maior impacto.
LEIA MAIS:
Frigoríficos da Amazônia não têm rastreabilidade eficaz
Rastreabilidade é trunfo para manter carne nos EUA
Desmate ameaça exportações de carne de MT aos EUA
Baixo controle sobre cadeia da carne prejudica investimentos no setor
Maioria e frigoríficos na Amazônia não controla origem da carne
Baixa produtividade pecuária pode ser revertida com práticas para mitigação de GEE
CNA planeja usar reconhecimento facial para rastrear gado no país

