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Pecuária pode frear alta de emissões de metano do Brasil

Pecuária pode frear alta de emissões de metano do BrasilGado em pastagem recuperada em Mato Grosso (Foto: Pecsa)

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Por André Garcia

As emissões brasileiras de metano alcançaram 21,1 milhões de toneladas em 2023, distanciando o País de seus compromissos globais para frear a crise climática. A explicação para o aumento de 6% está no pasto: só em 2023 a fermentação entérica, o “arroto” do boi, correspondeu a 14,5 milhões de toneladas do gás (CH4), um recorde para o setor.

Embora permaneça na Terra por menos tempo que CO², o metano é muito mais potente em reter calor. Durante um período de 20 anos, o metano tem um potencial de aquecimento global cerca de 80 vezes maior que o CO2. Por isso, a redução das emissões de metano é uma das estratégias mais rápidas para combater as mudanças climáticas.

Os números fazem parte de levantamento divulgado nesta quarta-feira, 27/8, pelo Observatório do Clima e mostram que também é no pasto que está a solução para o problema. Por meio da pecuária sustentável, o País pode reduzir suas emissões em 45% até 2040, o que é crucial para evitar um aumento de 0,3 ºC na temperatura global.

“Para isso, é preciso melhorar a dieta animal, reduzir o tempo de abate do gado de corte e investir na melhoria genética do rebanho de corte e leite, junto com uma série de outras estratégias que favorecem a produtividade dos sistemas”, aponta o analista de ciência do clima do Imaflora, Gabriel Quintana.

Produzir mais, poluir menos

Hoje o Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, com 238,6 milhões de cabeças em 2023, e lidera as exportações de carne. Em entrevista coletiva, Gabriel explicou que a redução de mais de um quarto das emissões de metano até 2035 não impacta esses índices.

O setor poderia, inclusive, aumentar o número de cabeças de gado produzidas, a partir de estratégias como a regeneração florestal e a recuperação de solos. Isso porque além de mitigar as emissões de metano, essas práticas aumentam a produtividade e são fundamentais para o futuro da atividade frente aos desafios da mudança climática.

“Ter um gado geneticamente adaptado às condições climáticas e conseguir otimizar os recursos dentro dos seus sistemas produtivos é determinante para uma maior rentabilidade e continuidade da atividade. Quem não estiver ativamente buscando e mostrando esses resultados está perdendo uma grande chance de alinhar o setor com seu potencial de entrega”, reforçou o especialista.

Escala para boas práticas

Historicamente, o agro é o setor brasileiro que mais emite metano. Em 2023, respondeu por 75,6% das emissões, com 15,7 milhões de toneladas, sendo 98% originadas na pecuária. Neste cenário, os sistemas de produção de carne e leite são os que têm maior potencial de contribuir para mitigar o metano do setor.

“É uma oportunidade de ouro para o setor demonstrar o que vem sendo feito, mas também para escalar essas ações, justamente porque é uma chance de aumentar a produtividade e a eficiência. Uma vez que se consegue estabelecer quem já está fazendo, é possível multiplicar essas ações”, avalia Gabriel.

Caminhos para redução

Um conjunto de estratégias pode levar o Brasil a mitigar 60,3 milhões de toneladas de CH4 até 2035. Elas incluem a recuperação de pastagens, a expansão da lavoura, pecuária e floresta (ILPF) e o aumento de 4,5% ao ano do rebanho de corte e leite com melhor dieta, alcançando 68% de abrangência para ambos os rebanhos até 2035.

O estudo do Observatório do Clima também propõe ampliar o abate precoce, reduzindo o tempo de permanência dos animais no pasto, e acelerar o uso de tecnologias que manipulam a fermentação ruminal, como aditivos alimentares para vacas leiteiras de alta produção e gado confinado.

Outro eixo é o melhoramento genético, que torna os animais mais produtivos e eficientes, reduzindo a emissão por quilo de carne ou litro de leite. Essa frente deve avançar junto com o tratamento de dejetos, por meio de biodigestores e compostagem, o que ajudaria a reduzir as emissões também na suinocultura e na bovinocultura de leite.

 

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