Resumo
- O melhoramento genético da soja em Mato Grosso prioriza plantas capazes de manter a produtividade mesmo sob seca severa e ataque de pragas, superando a busca exclusiva por recordes em clima ideal.
- Nematoides atacam as raízes e multiplicam as perdas durante a estiagem. Cultivares resistentes protegem o sistema radicular e podem garantir uma vantagem de 10 a 15 sacas por hectare, definindo o lucro da safra.
- A startup BRG Brasil Genética, criada no estado, busca encurtar o desenvolvimento de novas cultivares de dez para sete anos, apostando em uma estrutura enxuta e focada nas dores locais.
- O programa de desenvolvimento é financiado por uma associação de agricultores, garantindo aos próprios produtores a titularidade sobre as variedades geradas.
- A empresa usa biologia molecular para ganhar precisão, mas mantém o foco em métodos tradicionais de melhoramento, aguardando maior consolidação comercial de ferramentas como a edição genética.
O sucesso da soja em Mato Grosso — que colheu 51,6 milhões de toneladas na safra 2025/26 — depende cada vez mais de plantas fortes o suficiente para encarar o clima extremo. O foco da genética mudou: em vez de buscar apenas a quebra de recordes em condições perfeitas, o objetivo agora é criar sementes que segurem a produção e evitem grandes perdas durante secas severas, chuvas em excesso e ataques de pragas.
Para resolver esse problema no Cerrado, o engenheiro agrônomo Antonio Ayrton Morceli Junior fundou a BRG Brasil Genética em 2021. Com experiência em empresas como Syngenta, Monsanto e Bayer, o especialista foca em desenvolver plantas com raízes mais fortes e protegidas. As informações são do Portal do Agronegócio.
Ter uma raiz saudável é a principal defesa da lavoura contra a falta de chuva e as doenças do solo. Os nematoides (que atacam as raízes) são um dos maiores vilões na região, prejudicando a absorção de água e nutrientes pela planta.
“Acabamos não vendo o sintoma no campo e não sabemos exatamente quanto essa espécie está retirando da produtividade, mas ela está provocando impacto”, afirma o pesquisador.
Quando o ataque desses patógenos acontece no meio de uma seca, o estrago é dobrado. Uma lavoura comum, que poderia colher 80 sacas por hectare, pode despencar para apenas 30. Já uma planta com genética resistente consegue segurar a produção na casa das 60 sacas.
Em tempos de custos altos, essa diferença de produtividade é o que define se a fazenda terá lucro ou prejuízo.
“Se você tem o nematoide, que ataca a raiz, e esta consegue se desenvolver melhor em uma planta resistente, quando tem a seca, ela vai potencializar ou pelo menos manter o potencial produtivo dela. Se você não tem essa característica, ela, além de perder para o nematoide, perde para a seca”, explica Morceli.
Pesquisa mais rápida e focada
A BRG quer reduzir o tempo de criação de uma nova semente de dez para cerca de sete anos. O projeto é bancado por uma associação de produtores, que serão os verdadeiros donos das novas variedades geradas. Com pouco mais de quatro anos de trabalho, a startup já tem plantas resistentes prontas para a fase de registro.
A estratégia para ganhar velocidade é manter uma equipe enxuta e focada diretamente nos problemas reais de Mato Grosso.
“Temos potencial para competir com grandes empresas que possuem estruturas muito maiores. A vantagem é conseguir manter o foco, trabalhar com uma equipe menor e reduzir parte da burocracia para avançar no melhoramento”, destaca.
A empresa usa tecnologia de DNA para agilizar a seleção das plantas, mas mantém os pés no chão utilizando os métodos tradicionais como base do negócio. Novidades como a edição genética ainda são observadas com cautela.
“Hoje se fala muito em edição genética e em GWS, mas a aplicação no desenvolvimento de cultivares de soja ainda está em processo de consolidação e geração de resultados em escala comercial”, avalia Morceli.
Com tantas opções de sementes disponíveis hoje — muitas delas com desempenhos parecidos —, ter apenas uma grande variedade de ofertas deixou de ser vantagem. O que o produtor realmente precisa é de uma planta que produza bem, esteja adaptada à sua região e resista aos problemas locais.
Mais do que um detalhe técnico, a estabilidade genética virou o principal seguro financeiro do agronegócio.

