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Tensões no Oriente Médio encarecem frete e dobram prazo das exportações do agro

Tensões no Oriente Médio encarecem frete e dobram prazo das exportações do agroUma saída tem sido desembarcar em portos fora do Golfo. Fotos: Portos Paranaguá

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Resumo:

  • Ameaças à navegação nos estreito de Ormuz e Bab el-Mandeb forçam exportadores brasileiros a redesenhar rotas para o Oriente Médio
  • Navio com soja do Brasil interrompeu a viagem na semana passada à espera da definição do quadro geopolítico
  • Contêineres de frango levam em média 80 dias até a região, mais que o dobro do período anterior ao conflito, e o custo logístico triplicou
  • Maersk e CMA CGM criaram tarifas emergenciais; a Maersk suspendeu agendamentos para vários países da região
  • Frete entre Europa e Ásia pode subir de 30% a 40%, com 19 dias a mais de viagem, segundo a Macroinfra

 

A escalada militar no Oriente Médio voltou a pressionar as exportações do agronegócio brasileiro. Com ameaças à navegação no Estreito de Ormuz, porta de entrada do Golfo Pérsico, e também no Bab el-Mandeb, passagem que liga o Oceano Índico ao Mar Vermelho, embarques de carnes, grãos e fibras enfrentam desvios cada vez mais longos, prazos que se estendem e fretes em alta.

Conforme publicação do Globo Rural desta segunda-feira, 27/7, um navio carregado com soja brasileira que seguia para a região precisou interromper a viagem na semana passada para aguardar a evolução do quadro geopolítico. Frigoríficos, por sua vez, devem intensificar o uso de caminhos alternativos, como a rota do Mediterrâneo com passagem pelo Canal de Suez.

O tráfego por Ormuz, entre Irã e Emirados Árabes, já vinha em queda acentuada desde março, depois dos ataques de Estados Unidos e Israel ao território iraniano. Diante disso, exportadores passaram a apostar no Bab el-Mandeb, que agora também está sob ameaça, desta vez dos houthis, grupo iemenita alinhado ao Irã.

Frango sob monitoramento

O Oriente Médio é o principal comprador do frango brasileiro, e as exportadoras acompanham de perto o que ocorre nos dois estreitos, segundo o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin. Ele afirma que empresas do país ampliaram o uso da rota mediterrânea para alcançar os portos sauditas de Jeddah e King Abdullah, no Mar Vermelho.

Outra saída tem sido desembarcar em portos fora do Golfo e completar o trajeto por rodovia: Salalah, no sul de Omã, Sohar, no norte do país, e Khorfakkan, nos Emirados, pouco antes de Ormuz.

A Aurora, terceira maior exportadora de carne de frango do Brasil, atrás de MBRF e JBS, substituiu o porto de Jebel Ali, antes acessado via Ormuz, por Jeddah. De lá, as cargas seguem de caminhão até os Emirados e outros países, explica o diretor de logística da cooperativa, Ricardo Souza. Khorfakkan e Salalah também entraram no roteiro.

Souza diz que não houve interrupção do fluxo pelo Bab el-Mandeb até agora, mas alerta que um eventual bloqueio da passagem sobrecarregaria os terminais da região, que já operam no limite.

“Isso geraria um caos. A única passagem [para os portos do Mar Vermelho] seria via Mediterrâneo, pelo Canal de Suez, mais longa”, afirmou.

Prazos dobrados, custo triplicado

Os gargalos já aparecem na ponta. Contêineres de frango brasileiro com destino ao Oriente Médio estão levando, em média, 80 dias, mais que o dobro do tempo registrado antes do conflito. O custo logístico triplicou. Há embarcações que chegam a Khorfakkan, não conseguem descarregar e retornam a Salalah.

“O impacto [da escalada do conflito] ainda não está sendo sentido porque já faz um tempo que as companhias estão tentando desviar dando a volta inteira na África, e já precificaram isso nos seus valores, mas [Bab el-Mandeb] ainda não está fechado”, avalia Olivier Girard, da Macroinfra Consultores. “Se se concretizar, vai ter um impacto muito grande no comércio mundial.”

O consultor projeta alta de 30% a 40% no frete marítimo das principais rotas entre Europa e Ásia, com 19 dias a mais de viagem, e aumento de 10% a 20% no transporte para a Arábia Saudita.

Leandro Gilio, professor do Insper, aponta três vetores de encarecimento: a troca de rotas, a insegurança, que pressiona o custo do seguro, e a alta dos combustíveis. No caso de carnes resfriadas e congeladas, o custo é ainda maior que o dos grãos.

“É um tipo de produto que não pode sofrer grandes atrasos. Qualquer problema logístico pode até prejudicar a qualidade do produto”, diz.

Algodão também muda de caminho

O efeito extrapola as proteínas. O algodão que seguia para a Turquia pelo Mediterrâneo e depois descia pelo Mar Vermelho rumo a Paquistão e Bangladesh terá de encontrar outro trajeto, provavelmente contornando o sul do continente africano, segundo Girard.

Saiba mais

Ormuz e Bab el-Mandeb são dois dos principais pontos de estrangulamento do comércio marítimo mundial. O primeiro é a única saída do Golfo Pérsico para o mar aberto, um corredor estreito entre Irã e Omã por onde passa boa parte do petróleo transportado por navio no planeta. O segundo liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e funciona como porta de entrada sul do Canal de Suez, rota que encurta em milhares de quilômetros o trajeto entre Ásia e Europa.

 

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