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Crise de fertilizantes expõe nova batalha do agro por mais fertilidade do solo

Crise de fertilizantes expõe nova batalha do agro por mais fertilidade do soloCultura do algodão em plantio direto em Sorriso. Foto: Alexandre Ferreira/Embrapa

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Por Vinicius Marques

A atual crise de fertilizantes expôs não só a dependência do agronegócio brasileiro em relação ao insumo que vem da Rússia hoje em guerra com a Ucrânia, mas também a urgência de o setor começar a focar na fertilidade do solo a partir de manejos mais eficientes das propriedades rurais. Os fertilizantes são apenas um dos itens para alcançar esse objetivo.

A mudança de rota inclui desde uma gestão correta contra o desperdício dos insumos, muitas vezes aplicados em excesso, até um plantio direto, integração lavoura-pecuária e mesmo consórcios com plantas de cobertura. Se a guerra no Leste Europeu colocou os fertilizantes na boca do agricultor, é preciso agora que a fertilidade do solo germine em mentes e corações.

“Momentos de crise são importantes para nos levar à busca de novos caminhos”, diz Maurel Behling, pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril e especialista em nutrição vegetal, ao Gigante 163.

Para o pesquisador, é importante seguir a técnica de manejo de nutrientes 4C — “a fonte certa, dose certa, local certo e hora certa”.

Assim, para que não haja desperdício de insumos e redução da produtividade e da qualidade do solo, o agricultor faz uso de produtos e técnicas que não visem apenas ao desenvolvimento de uma cultura específica (seja de soja ou outra safra), mas de todo o ecossistema de produção.

“É mais interessante pensar no sistema como um todo. Por exemplo, fazer uma adubação no milho que vai beneficiar a safra seguinte da soja; da mesma forma que o milho se beneficia do nitrogênio fixado pela soja. Assim, o produtor só faz correções mais pontuais”, explica Behling. “Às vezes eu não preciso fazer adubação cultura a cultura, eu passo a pensar o sistema como um todo e a otimizar essa atuações.”

O pesquisador afirma que, ao unir boas práticas do agro, como sistemas de plantio direto, integração lavoura-pecuária e mesmo consórcios com plantas de cobertura, o aumento de eficiência é nítido, permitindo ao produtor até mesmo elevar os patamares da produção.

“No passado, as recomendações de fertilidade eram muito voltadas para um conceito mais mineralista”, relata Behling. “Quando, na verdade, é muito mais amplo; envolve o tripé químico, físico e biológico.”

Segundo ele, mesmo áreas com grande concentração de nutrientes químicos, como fósforo e potássio, podem apresentar baixa produtividade, por causa de fatores limitantes que devem estar na mira do proprietário de terra.

“O problema maior não é um determinado fertilizante, mas a baixa eficiência que o produtor obtém ao fazer o mau uso dos insumos.”

O produtor sabe que o uso em excesso desses produtos pode prejudicar a saúde do solo. Behling lembra que uma quantidade excessiva de potássio pode desequilibrar a ciclagem de nutrientes, desfavorecendo a absorção de outros componentes importantes para a planta. O excesso de cálcio, por sua vez, pode causar a compactação do solo. Por isso, o especialista em nutrição vegetal defende a adoção da agricultura de precisão, distribuindo os nutrientes de acordo com a demanda de cada área.

“Até então, o que vinha sendo feito é um consumo de luxo desses produtos. Hoje é o momento de rever decisões equivocadas que foram tomadas no passado. Precisamos pensar nessa questão da eficiência do sistema de produção; o processo de conservação de solo e água é fundamental para a conservação dos nutrientes”, ressalta o pesquisador da Embrapa.

Além disso, a Embrapa, por meio do Plano Nacional de Fertilizantes, promoverá em abril a Caravana FertBrasil, divulgando fontes alternativas de nutrientes. Um exemplo é o pó de rocha, material mineral de diferentes composições — a depender da demanda — que libera gradativamente parte de seus nutrientes com ajuda da ação de microorganismos do solo.

“E tem também os biofertilizantes, que são uma outra forma de diminuir a dependência das fontes nutritivas convencionais”, completa Behling.

Comodidade e apego ao passado sem atualização do presente não levarão o produtor a vencer essa guerra.

“Muitas vezes, o produtor resiste a alternativas inovadoras e mais eficientes por comodidade mesmo, pela facilidade de seguir a rotina da fazenda. Ele acaba vendo essas mudanças como um custo, não como um investimento. No entanto, a crise oferece a ele a oportunidade de romper barreiras e encontrar novos modos de produzir, reduzindo custos e gerando um bom retorno”, conclui o pesquisador.

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