Por André Garcia
Manter áreas contínuas de floresta em pé é decisivo para reduzir riscos climáticos e dar mais previsibilidade a atividades econômicas como a agricultura. Na Amazônia, por exemplo, regiões com mais de 80% de cobertura florestal têm temperaturas até 3 °C mais baixas e um regime de chuvas mais regular em comparação a áreas desmatadas.
Diante dos mais de 59 milhões de hectares já desmatados na Amazônia desde 1985, segundo dados do MapBiomas Amazônia, uma área maior que a Alemanha, pesquisadores brasileiros e internacionais avaliaram como a perda acumulada de árvores tem afetado o clima regional.
Em estudo publicado na Communications Earth & Environment, eles mostraram que áreas com menos de 60% de cobertura florestal, a evapotranspiração — processo pelo qual a vegetação devolve água à atmosfera — é 12% menor. Com isso, a precipitação na estação seca cai 25%, e o número de dias chuvosos diminui em até 11 dias por ano.
“Os impactos do desmatamento na estação seca indicam um aumento médio da temperatura da superfície terrestre de +0,05 °C por ponto percentual de redução na cobertura florestal, enquanto a evapotranspiração e a precipitação mostram reduções consistentes”, diz trecho do documento.
Previsibilidade climática importa para quem produz
Na prática, a floresta atua como um amortecedor climático, executando processos essenciais para a formação de chuvas. Para o produtor, a perda dessa função reguladora significa falta de precisão na hora de decidir quando plantar, quanto investir e como manejar as lavouras.
Para mitigar prejuízos, o controle do desmatamento e a restauração de áreas degradadas aparecem como caminhos para reforçar a resiliência climática da Amazônia, já que a floresta desempenha papel fundamental no resfriamento da superfície e na reciclagem de umidade que sustenta as chuvas.
“O Brasil precisa dar o seu exemplo e se comprometer seriamente em colocar a ideia em prática, já que esta é uma das principais soluções baseadas na natureza para reduzir os impactos das mudanças climáticas na sociedade e ecossistemas Amazônicos”, ressalta Marcus Silveira, pesquisador do INPE que liderou o trabalho.
Para o Dr. Luiz Aragão (INPE), um dos autores do trabalho e supervisor do estudo, “não há mais como adiarmos ações para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa, particularmente combustíveis fósseis.
“A ciência, com novas tecnologias computacionais, satélites e grandes bases de dados, nos traz cada vez mais informações robustas, alertando sobre o perigo ao bem-estar social, à estabilidade econômica e à segurança hídrica, energética e alimentar do país se continuarmos na atual rota de desenvolvimento”.
Impactos crescem à medida que a floresta diminui
De acordo com o estudo, os impactos climáticos do desmatamento não surgem apenas em cenários extremos, mas aumentam de forma progressiva à medida que a cobertura diminui. Alterações na temperatura da superfície, na evapotranspiração e no regime de chuvas já são detectáveis em áreas que ainda mantêm entre 60% e 80% de floresta.
Outro achado relevante é que regiões altamente desmatadas passam a apresentar características climáticas semelhantes às observadas em áreas de transição entre floresta e savana. Esse padrão, identificado sobretudo em variáveis como temperatura da superfície e evapotranspiração, não é observado nas regiões mais preservadas.
A análise de variáveis climáticas entre 2013 e 2021 mostrou ainda que espécies menos adaptadas sofrem mais, enquanto a floresta remanescente fica mais frágil e sujeita à degradação. Ou seja, áreas já desmatadas estão mais vulneráveis a incêndios e a substituição da floresta por vegetação mais rala e menos resistente.
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