HomeProdutividade

Consórcio em pastagem eleva ganho de peso do gado em até 72%

Consórcio em pastagem eleva ganho de peso do gado em até 72%No estudo, foram analisados três sistemas de produção. Foto: Thais Rodrigues de Sousa

Entenda como cuidado com solo garantirá liderança da soja brasileira
Estudo analisa impacto da conversão de florestas em pastagens
Produtores de MT adotam ILPF para garantir segurança e renda

Por André Garcia

Uma mudança simples no manejo da pastagem, como o consórcio com leguminosas e gramíneas, pode elevar em até 72% o ganho diário de peso dos bovinos e ao mesmo tempo reduzir em até 60% a emissão de metano (CH₄) por quilo de ganho de peso, deixando a produção muito mais eficiente e competitiva.

O resultado, segundo estudo conduzido pela Embrapa Cerrados em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), vem do melhor aproveitamento da forragem, que além de melhorar o desempenho dos animais, contribui para a qualidade do solo, aumentando a disponibilidade de nutrientes e dando mais estabilidade ao pasto.

“As forrageiras têm sido utilizadas como espécies de duplo propósito ou plantas de serviço, atuando tanto como pastagens nas áreas de integração com a pecuária quanto como plantas de cobertura nas áreas agrícolas, desempenhando papéis específicos na melhoria do sistema de produção”, explica o pesquisador Robélio Marchão.

Manejo simples, ganho expressivo

Ao longo do estudo foram analisados três sistemas de produção: uma pastagem contínua solteira de capim BRS Piatã (S1); uma pastagem contínua de BRS Piatã consorciada com a leguminosa feijão-guandu IAPAR 43 (S2); e uma pastagem em rotação com lavoura (ILP) de capim BRS Zuri (S3).

O gado apresentou melhor desempenho à medida que o sistema se intensificava. No primeiro caso, o ganho médio diário foi de 0,44 kg por animal. No segundo, esse valor subiu para 0,69 kg por dia. Já no sistema integrado com rotação lavoura-pecuária, o ganho chegou a 0,76 kg por animal ao dia.

Os dados foram coletados no experimento com sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) mais antigo do Brasil, implantado em 1991. As avaliações ocorreram em maio, agosto e dezembro de 2024 e fazem parte da tese de doutorado da pesquisadora Thais Rodrigues de Sousa.

Emissões

A estratégia também reduziu a emissão de metano entérico (CH₄), gerado no processo digestivo dos bovinos. Enquanto a pastagem solteira emitiu 450 gramas de CH₄ por quilo de ganho de peso vivo por hectare, no consórcio com leguminosa, o índice foi 269 gramas e no sistema integrado com capim Zuri em rotação, 224 g.

O metano é um dos gases de efeito estufa (GEE) e tem potencial de aquecimento global 27 vezes maior que o do CO₂, mas não é o único associado à pecuária. Resultados obtidos na mesma área experimental demonstraram que os sistemas integrados também reduziram as emissões de óxido nitroso (N₂O) em até 59%.

Descarbonização

Outro ponto positivo foi a capacidade de armazenamento de carbono no solo, na camada de 0 – 30 cm. Enquanto na pastagem solteira o estoque foi de 62,20 t C ha⁻¹ (toneladas por hectare), o consórcio entre capim BRS Piatã e feijão guandu-anão (S2) alcançou 83,17 t C ha⁻¹.

No Brasil, onde cerca de 90% da produção bovina ocorre em sistemas a pasto, os dados reforçam que estratégias de intensificação bem manejadas são fundamentais para aumentar a eficiência produtiva, reduzir a pegada climática da pecuária e fortalecer a resiliência do setor diante das mudanças climáticas.

“A redução das emissões sem comprometer o desempenho animal é um dos principais desafios da agropecuária, e sistemas integrados, consorciados ou intensivos têm se mostrado alternativas viáveis na descarbonização desse setor”, reforça a pesquisadora Arminda de Carvalho.

Atualização das recomendações

Recomendações sobre o uso de leguminosas em consórcio com pastagens estão sendo atualizadas. Uma circular técnica com orientações para a introdução do guandu-anão em consórcio com capim-braquiária, em sistema de plantio direto, foi publicada em setembro de 2025 pela Embrapa. O material pode ser consultado aqui.

No caso do consórcio com guandu-anão, a equipe ressalta que, além de elevar o valor nutritivo da forragem, há uma melhoria na qualidade do solo que impacta diretamente a gramínea, aumentando a disponibilidade de nitrogênio em formas orgânicas.

 

LEIA MAIS:

Leguminosa aumenta competitividade em sistemas de ILP

Experimento em ILP e SPD em Dourados completa 30 anos

Número de árvores impacta produção, diz estudo sobre ILPF

Com aposta ILP, Michel Teló dobra lavoura em fazenda de MS

Lucrativo, ILPF exige planejamento; veja como migrar

Além de rentabilidade, ILPF garante segurança e competitividade