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Critério ambiental vira ‘chave’ de acesso para o mercado chinês

Critério ambiental vira ‘chave’ de acesso para o mercado chinêsOrigem da produção ainda concentra riscos altos de desmatamento. Foto: Agência Brasil

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Por André Garcia

Especialistas apontam que o comércio agrícola entre Brasil e China, que movimenta cerca de US$ 47 bilhões por ano, entra em uma nova fase. Mais do que volume, o acesso ao principal do mercado brasileiro passa a depender, cada vez mais, de critérios ambientais como rastreabilidade, controle do desmatamento e transparência da produção.

Esse movimento está diretamente ligado ao nível de risco ambiental associado ao comércio entre os dois países. Segundo análise da iniciativa Trase, a relação entre Brasil e China concentra 25% de todo o risco de desmatamento associado ao comércio global de commodities agrícolas.

Mais da metade das exportações agrícolas do Brasil têm como destino o país asiático, enquanto cerca de um terço das importações chinesas vêm do Brasil. Soja e carne bovina lideram esse fluxo, que hoje é também um dos principais pontos de pressão sobre a sustentabilidade da produção.

Risco na origem

Isso acende um alerta para o Brasil, já que, segundo o relatório, 80% do risco de que as importações agrícolas da China estejam associadas a áreas recentemente desmatadas vêm do Brasil. No caso da pecuária, os produtos brasileiros representam sozinhos 61% desse risco.

Embora o Brasil avance em produtividade e tecnologia, a origem da produção ainda concentra riscos altos, principalmente na pecuária, onde a rastreabilidade da cadeia segue como principal desafio. Como já mostramos, a dificuldade em monitorar fornecedores indiretos mantém lacunas que já começam a pesar na percepção internacional.

De acordo com a análise, mais de 1.500 municípios brasileiros exportam soja para a China, mas apenas 73 respondem por 75% de todo o risco de desmatamento associado a esse fluxo.

Poder de influência

Ao analisar a relação entre os dois países, a diretora-executiva da COP30 Ana Toni, explica que, pelo peso que têm no comércio global, Brasil e China podem influenciar a sustentabilidade das cadeias globais de abastecimento e contribuir para a segurança alimentar de bilhões de pessoas.

“Ambos os países têm demonstrado liderança na promoção da sustentabilidade em larga escala, desde a transição energética até a restauração de áreas degradadas e a governança ambiental. Isso cria uma base sólida para a cooperação em agricultura sustentável e cadeias de suprimento de commodities responsáveis.”

Isso abre espaço para respostas mais direcionadas, tanto por parte de políticas públicas quanto de iniciativas privadas, com foco em áreas críticas da produção. Ao mesmo tempo, produtores que já operam com maior nível de controle e conformidade podem se beneficiar, ganhando espaço em um ambiente mais seletivo.

“Acredito que China e Brasil podem, e devem, transformar seu enorme volume de comércio em uma força poderosa para proteger biomas de importância global, como a Amazônia e o Cerrado, conter o aquecimento global e conservar a biodiversidade”, avalia o diretor do Nature-Positive Research Centre, Zhu Chunquan.

Solução na prática

Conforme o documento, já existem exemplos concretos de como isso pode ser feito. Um caso citado é a parceria entre a empresa chinesa Mengniu Dairy e a trading COFCO International, para o fornecimento de soja brasileira certificada como livre de desmatamento e conversão de áreas naturais.

Por meio de auditorias, rastreabilidade via blockchain e verificação por satélite, foi construída uma cadeia de suprimento totalmente transparente. Desde 2024, mais de 600 mil toneladas de soja foram importadas para a produção de laticínios premium, demonstrando que o abastecimento sustentável em larga escala é viável e competitivo.

 

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