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Lei da UE já impulsiona rastreabilidade em empresas globais

Lei da UE já impulsiona rastreabilidade em empresas globaisNúmeros demonstram influência da regulação. Foto: Reprodução/CNA

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Por André Garcia

O Regulamento da UE sobre Desmatamento (EUDR) só passa a valer em dezembro de 2026, mas já é citado por 14% das 500 companhias com maior influência sobre o desmatamento global como razão para adotarem novas práticas. Os dados são do Forest 500, relatório da organização britânica Global Canopy, publicado nesta terça-feira, 14/4.

A edição 2026 coletou mais de 270 mil pontos de dados públicos, e reforçou o impacto da norma para o avanço da rastreabilidade, por exemplo. Das 68 empresas que mencionam o EUDR em documentos públicos, 45 apontam a norma diretamente como motivador para a adoção da estratégia.

Para a pesquisadora associada da Global Canopy, Chloe Rollscane, isso demonstra a influência que a regulamentação pode ter.

“Os dados indicam que as empresas estão se preparando para o EUDR mesmo antes de sua implementação. Como os dados do Forest 500 se baseiam exclusivamente em divulgações públicas das empresas, isso é provavelmente apenas a ponta de um iceberg maior de decisões corporativas tomadas em privado.”

 O que muda com o EUDR

Quando entrar em vigor, o regulamento vai exigir que empresas que colocam produtos no mercado europeu, ou que exportam a partir dele, comprovem que suas cadeias de suprimento são livres de desmatamento. As commodities cobertas são: carne bovina, cacau, café, couro, óleo de palma, celulose e papel, borracha, soja e madeira.

Para exportadores brasileiros, isso significa rastrear a origem dos produtos até o nível do lote de produção e apresentar declarações de diligência devida.

Em 2025, o número de empresas com evidências públicas de mecanismos de rastreabilidade cresceu em 8 das 9 commodities avaliadas pelo Forest 500. Ainda assim, 53% das empresas monitoradas ainda não divulgam publicamente nenhum mecanismo do tipo — uma queda em relação aos 58% de 2024.

Quem está se movendo 

O relatório traz exemplos concretos de como o EUDR está moldando decisões empresariais. A Domino’s Pizza estabeleceu como meta implementar sua política de desmatamento para os mercados europeus e garantir que seus parceiros comerciais estejam em conformidade com o regulamento.

A Ferrero declarou que a visibilidade ao longo da cadeia de suprimento é essencial para avaliar o risco de desmatamento — e que sem dados precisos sobre as origens dos insumos é impossível atender a exigências regulatórias como o EUDR.

O trader singaporiano OLAM International foi além e afirmou que sua preparação para o regulamento fortalece sua reputação como parceiro confiável na indústria alimentícia.

No setor financeiro, o movimento também é visível. A aliança Net Zero Asset Owner Alliance publicou um roteiro sobre desmatamento que aponta caminhos práticos para que investidores institucionais engajem as empresas de seus portfólios nas exigências que se aproximam.

Panorama global

O Forest 500 classifica as empresas em três grupos. Apenas 19, ou 4% do total, são consideradas líderes: têm compromissos sólidos para todas as commodities às quais estão expostas e relatam implementação significativamente mais robusta que a média. Nestlé, Flora Food Group e Mondi Group estão nesse grupo.

A maioria, 313 empresas, ou 63%, está no grupo intermediário: assumiu compromissos parciais e avança lentamente.

Outras 168 empresas, 33% do total, não têm nenhum compromisso público contra o desmatamento para qualquer commodity. Entre as que nunca publicaram um único compromisso nos 12 anos de existência do ranking estão a fabricante suíça de calçados Bata Corporation, a alemã Deichmann e a cooperativa agrícola americana Land O’Lakes.

O relatório também registra retrocessos. Apesar do discurso sobre reversão de agendas ESG, apenas 14 empresas, 3% do total, removeram compromissos. É o caso da Nike, que retirou celulose e papel de seu relatório de sustentabilidade 2025, revertendo um compromisso assumido no ano anterior.

 

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