HomeEcologiaEconomia

Granizo ameaça se tornar o vilão mais caro do agro

Granizo ameaça se tornar o vilão mais caro do agroGranizo causa prejuízo de US$ 80 bilhões no mundo todo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Grande parte da produção em Mato Grosso já está se tornando mais sustentável, diz diretor da PCI
Agro brasileiro mostra força para buscar novos mercados
Rússia suspende exportações de fertilizantes e pressiona o agro

Por André Garcia

Resumo

  • Um planeta mais quente retém mais vapor d’água e mais energia na atmosfera, criando o combustível para tempestades mais fortes.
  • Estudo da Central Michigan University projeta aumento de 38% a 47% nas tempestades com granizo grande até o fim do século.
  • O ar mais quente derrete o granizo pequeno antes de ele chegar ao chão, mas deixa passar as pedras grandes — as mais destrutivas.
  • No Brasil, os desastres com granizo já causaram R$ 2,3 bilhões em perdas entre 2020 e 2024, segundo a CNM.

Enquanto produtores de soja e milho de Mato Grosso do Sul ainda contabilizam os prejuízos causados por tempestades de granizo na última semana, um estudo da Central Michigan University, nos Estados Unidos, indica que o fenômeno pode se tornar um dos eventos climáticos mais caros e destrutivos das próximas décadas.

Conforme o estudo, divulgado na semana passada, as mudanças climáticas provocadas pela queima de combustíveis fósseis devem deixar o ar mais quente e instável, condição que favorece tempestades fortes o suficiente para formar granizo.

A projeção é de que as tempestades com pedras maiores do que uma bola de gude podem crescer entre 38% e 47% até o fim do século, dependendo do volume de emissões de gases de efeito estufa.

A explicação é simples. Um planeta mais quente guarda mais vapor d’água e mais energia na atmosfera, o que alimenta tempestades mais intensas. E essa mesma atmosfera quente derrete o granizo pequeno antes de ele chegar ao chão, enquanto as pedras grandes resistem e atingem o solo com força.

“Isso leva a correntes ascendentes mais fortes dentro das tempestades e aumenta a capacidade de formação de granizo”, explicou o professor de meteorologia da Central Michigan University e coautor do estudo, John Allen, à Associated Press.

Prejuízos bilionários

O granizo raramente mata, mas custa caro. Só nos Estados Unidos, o fenômeno gera cerca de US$ 10 bilhões em perdas por ano, e aproximadamente US$ 80 bilhões no mundo todo.

No Brasil, dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostram que, entre 2020 e 2024, os desastres com granizo causaram R$ 2,3 bilhões em perdas. Mais de 19,6 mil pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas, e 650,7 mil foram impactadas.

“Temos observado pedras de granizo recordes nos últimos anos. Acho isso extremamente preocupante porque não estamos construindo nosso ambiente para ser resiliente ao granizo”, afirmou Allen.

O golpe nas lavouras de MS

Na terceira semana de maio, os municípios de Deodápolis, Fátima do Sul, Ivinhema e Dourados foram atingidos por tempestades de granizo, que causaram danos significativos às lavouras, segundo a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS).

Localizadas nas regiões centro, sul, sul-fronteira e sudeste, essas áreas já vinham mostrando maior sensibilidade ao clima. Nelas, 23,8% das lavouras estão classificadas como ruins, principalmente por causa da irregularidade das chuvas e do risco de estiagem e geadas durante o ciclo da cultura.

Diante do cenário, o coordenador técnico da entidade, Gabriel Balta, alerta que o produtor precisa manter atenção redobrada às condições climáticas nas próximas semanas.

“Temos áreas do centro e sul do estado que já demonstram impacto da irregularidade das chuvas, além de ocorrências pontuais de granizo e risco de geadas durante a fase reprodutiva da cultura. Isso pode comprometer parte do potencial produtivo dessas regiões”, destacou John Allen.

SAIBA MAIS

O que são as mudanças climáticas?

As mudanças climáticas são o aquecimento gradual do planeta causado, sobretudo, pela ação humana. Ao queimar combustíveis fósseis para gerar energia, transporte e indústria, liberamos gases de efeito estufa — como o gás carbônico (CO₂) — que se acumulam na atmosfera e funcionam como um cobertor, segurando o calor que normalmente escaparia para o espaço. O desmatamento agrava o problema: além de liberar o carbono estocado nas árvores, reduz a capacidade da vegetação de absorver o CO₂ do ar.

Para o agro, o recado é de planejamento: acompanhar os alertas meteorológicos, respeitar as janelas de plantio e investir em gestão de risco, como o seguro rural, deixa de ser cautela e passa a ser necessidade num clima cada vez mais instável.

LEIA MAIS:

Seca responde por 80% das perdas históricas nas lavouras de MS

FGV aponta riscos em modelo de seguro rural obrigatório

Cresce a frequência de eventos climáticos extremos em MT

Extremos climáticos: produtores de boas práticas evitam prejuízos