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El Niño eleva custos e ameaça pastagens na pecuária

El Niño eleva custos e ameaça pastagens na pecuáriaEl Niño deve atrasar as chuvas e segurar o crescimento do pasto no Centro-Oeste. Foto: Indea

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Resumo

  • A NOAA estima 82% de chance de El Niño já no trimestre maio-julho, com efeitos sentidos ao longo do segundo semestre.
  • No Centro-Oeste, o maior risco para a pecuária é o atraso das chuvas na transição seca-águas, que segura o crescimento do pasto.
  • O aperto deve vir mais pelo custo do que pela quebra: suplementação, condição das matrizes e margem do leite entram na conta, com a arroba já em patamar elevado (R$ 353,15 em 8/jun).
  • Em Goiás, produtores que anteciparam o ajuste de estoque e a silagem chegam ao período seco em vantagem.

Por André Garcia

Com 82% de chance de El Niño já no trimestre maio-julho, segundo a NOAA, o agro brasileiro se prepara para enfrentar momentos de seca extrema e de chuva em excesso, dependendo da região do País. Em um cenário de incertezas, o desafio não será apenas o de produzir menos, mas o de produzir com maior custo, instabilidade e menor previsibilidade ao longo do segundo semestre.

É o que adiantam pesquisadores da Esalq, que, em artigo publicado na última semana, destacam os principais impactos do El Niño sobre cada região brasileira. No Centro-Oeste, além de calor e baixa umidade em MT, GO e DF, agravando o risco de queimadas na primavera, o El Niño pode trazer chuvas regulares ao sul (MS e sul de GO), mas mantém as chuvas irregulares no norte da região

Com isso, um dos principais efeitos será sentido pela pecuária do Centro-Oeste, já que o atraso na volta das chuvas deverá segurar o crescimento do pasto.

“Em sistemas baseados em pasto, qualquer atraso na recuperação das chuvas, veranicos prolongados ou temperaturas acima da média podem reduzir o crescimento das forrageiras, diminuir a capacidade de suporte das áreas e pressionar o ganho de peso dos animais ou a produção de leite”, diz trecho da publicação.

Isso significa que o risco para a pecuária não está apenas em uma eventual seca. Chuva em excesso, na hora errada, faz estrago parecido: encharca o solo, atrapalha o trato do rebanho e estraga a forragem guardada para o período seco.

“O excesso de chuvas também pode ser problemático, sobretudo quando compromete manejo, qualidade de forragens, sanidade, logística, colheita de grãos e conservação de volumosos”, aponta a Esalq.

Suplementação pode ser vilã dos gastos

Na pecuária de corte, a suplementação é um dos gastos que mais preocupam — e ela pesa ainda mais num momento sensível do rebanho: o preparo das matrizes. O período de maio a outubro é a janela em que as fêmeas se preparam para a estação reprodutiva.

Se a seca se estende, o pasto perde qualidade ou a suplementação encarece, o escore das vacas não recupera, o que reflete na fertilidade e na taxa de prenhez.

Com relação à oferta, no curto prazo, o pasto ruim empurra o produtor a vender antes, para não perder peso nem sobrecarregar a área; mas, com suplementação e reposição caras, segurar o animal fica difícil, o que limita a recomposição do rebanho lá na frente.

E tudo isso com a arroba já em patamar elevado: em 8 de junho de 2026, o Indicador do Boi Gordo CEPEA/ESALQ marcava R$ 353,15, alta de 0,99% no mês.

Aperto na margem da pecuária leiteira

Na pecuária de leite o maior problema é que, no calor, as vacas comem menos, produzem menos e reproduzem pior. E o setor já está pressionado.

Segundo o Cepea, o preço do leite ao produtor subiu no primeiro trimestre de 2026, mas seguia abaixo, em termos reais, do mesmo período de 2025; ao mesmo tempo, o Custo Operacional Efetivo subiu em abril pelo quarto mês seguido.

Em Goiás, quem se preparou largou na frente

Por enquanto, o clima ainda joga a favor. O analista técnico do Ifag Marcelo Penha descreve um quadro de temperaturas amenas, o que segura o impacto do calor sobre o bem-estar animal e favorece o gado a pasto. A diferença, diz ele, está em quem se antecipou.

“Mesmo com o desgaste do capim, o produtor se preparou e consegue segurar o animal. O ajuste de estoque foi uma manobra importante de antecipação do produtor de animais para corte”, avaliou.

No leite, a vantagem é a mesma.

“Observamos também que no caso do gado de leite, o produtor já vem bem estruturado, preparando a silagem, e isso, ajustando o estoque, facilita a passagem do período mais seco do ano, aguardando as chuvas em meados de outubro, onde as coisas se normalizam”, completou o analista.

Para quem ainda aperta com muito animal e pouco pasto, Penha aponta duas saídas. Uma depende do caixa: alugar pasto para desafogar agosto e setembro. A outra é mexer na comida do rebanho.

“O produtor pode fazer um tratamento diferenciado, utilizando casquinha de soja juntamente com bagaço de cana, juntamente com um proteinado, ou até mesmo utilizando uma ração pronta, variando de 0,3% até 1% do peso vivo animal, dependendo de como estão os animais dele nesse período de final de julho, agosto e setembro”, pontuou.

Saiba mais

O que é o El Niño: O El Niño é um fenômeno climático marcado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, na região da linha do Equador. Esse aquecimento altera a circulação do ar e o regime de chuvas em boa parte do planeta. No Brasil, costuma deixar o Sul mais chuvoso e o Norte e o Nordeste mais secos, enquanto no Centro-Oeste e no Sudeste o efeito mais comum é a irregularidade das chuvas — períodos secos no meio da estação chuvosa, calor acima da média e instabilidade na virada da seca para as águas. Sua intensidade varia de um ciclo para outro, e os impactos dependem também de outros fatores oceânicos, como as condições do Atlântico.

 

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