Resumo
- A colheita do milho 25/26 avança bem em Mato Grosso (11,29% da área até 12 de junho), mas o produtor já planeja uma safra 26/27 mais cara.
- O custeio do milho subiu 14,46% e o da soja 3,21%; para cobrir só o custo operacional, o produtor precisa vender o milho a pelo menos R$ 45,96 por saca.
- O crédito rural segue caro — juros de custeio beiraram 14% ao ano — e o Plano Safra 2026/27 só sai em 1º de julho.
- O El Niño entra como risco extra: na soja o impacto é direto, no milho ele aperta a janela da segunda safra; a Conab já registra clima afetando a 2ª safra em Goiás e Minas.
Por André Garcia
A colheita do milho avança a todo vapor em Mato Grosso — 11,29% da área até 12 de junho, acima do ritmo do ciclo passado e perto da média dos últimos cinco anos, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Mas, enquanto colhe, o produtor já faz outra conta, bem menos animadora: a da temporada que vem.
O custo de produção 26/27 sobe tanto no milho quanto na soja, o crédito rural aperta e o El Niño complica o planejamento, atingindo as duas culturas de forma diferente. Por isso, na avaliação da analista do Imea, Milena Bezerra, o problema agora não é só quanto vai custar plantar, mas quando vai dar para plantar.
“Diferente da soja, onde o impacto é direto, no milho o fenômeno afeta a cultura de primeira safra, podendo comprometer a janela de plantio da segunda safra de milho. Somado a isso, o custo de produção apresentou alta, com o custeio estimado em maio atingindo R$ 3.800 por hectare”, explica.
A conta da próxima safra já subiu
Para o período, o custeio do milho foi estimado em R$ 3.799,42 por hectare em maio, alta de 14,46% sobre o ciclo anterior, segundo o Projeto Custo de Produção Agropecuário (CPA), do Senar-MT em parceria com o Imea.
O Custo Operacional Efetivo subiu a R$ 5.528,49 por hectare (+15,03%), e o Custo Total chegou a R$ 7.418,49 (+10,30%). Na prática, para cobrir só o custo operacional com a produtividade projetada, será preciso vender o milho a pelo menos R$ 45,96 por saca.
Na soja, a alta é mais contida, mas vem acompanhada. O custeio da 26/27 está estimado em R$ 4.315,29 por hectare, aumento de 3,21% sobre a safra anterior, segundo levantamento do CPA divulgado em 15 de junho.
Insumo caro e crédito apertado
Na soja, o que puxou a conta foram os insumos: fertilizantes e corretivos subiram 5,40%, pressionados por fatores geopolíticos, e os defensivos avançaram quase 11%. Com isso, o ponto de equilíbrio da atividade cresceu 9,13% — o produtor precisa colher mais ou vender mais caro só para manter a rentabilidade de antes.
Além disso, Milena destaca o momento de crédito caro. A safra atual foi financiada sob os juros mais altos dos últimos anos, reflexo da Selic em torno de 15%, com taxas de custeio que beiraram os 14% ao ano. O Plano Safra 2026/27, que pode trazer algum alívio, só tem lançamento previsto para 1º de julho.
“O cenário de crédito rural mais restrito limita os investimentos dos produtores, tanto em maquinários quanto no próprio pacote tecnológico utilizado nas lavouras. Dessa forma, temos uma combinação de fatores climáticos e econômicos que pode pressionar a produtividade e influenciar as decisões de investimento nas propriedades”, afirma.
O clima ainda é a incógnita
O que já acontece em Mato Grosso antecipa o que tende a pesar sobre o Centro-Oeste e sobre a safra nacional como um todo. O estado é o maior produtor de soja e milho do país, e o aperto que o produtor mato-grossense enfrenta funciona como um termômetro do que vem pela frente.
No 9º Levantamento, divulgado em 13 de junho, a Conab estimou safra recorde de grãos, de 358,6 milhões de toneladas, puxada pela soja (180,1 milhões). Mas o próprio órgão registrou que fatores climáticos já reduziram a segunda safra de milho em estados como Goiás e Minas Gerais.
Foi nessa direção que apontou também a Esalq, em artigo recente. Mesmo com a produção em patamar recorde, alertam os pesquisadores, o El Niño tende menos a provocar uma quebra de safra e mais a elevar a volatilidade dos preços e a mexer nas estratégias de compra e venda.
“A incerteza quanto à intensidade do El Niño preocupa o setor, já que esse fenômeno impacta diretamente o desenvolvimento da cultura e limita o potencial produtivo das lavouras. Ainda não é possível prever como será o comportamento das chuvas, mas já existe a confirmação da presença das condições de El Niño no Pacífico Equatorial”, conclui Milena.
Saiba mais
Entenda os custos da lavoura: Custeio é o gasto direto para tocar a safra (sementes, fertilizantes, defensivos, operações). O Custo Operacional Efetivo (COE) soma a esses gastos outras despesas correntes da atividade. Já o Custo Total (CT) inclui também a remuneração da terra e do capital. O ponto de equilíbrio é a produtividade (ou o preço) mínima de que o produtor precisa para não ter prejuízo — quando ele sobe, a margem aperta.
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