Resumo:
- Programas de crédito com juros menores passaram a exigir comprovação de sustentabilidade, transformando indicadores de manejo em ativo financeiro para o pecuarista.
- Boa parte do pequeno e médio produtor de cria, elo onde o boi nasce, ainda registra o rebanho no papel, o que dificulta o acesso a esse crédito.
- O Centro-Oeste concentra 31,4% do rebanho nacional, o maior do País, e é onde a pressão por digitalização mais pesa, segundo o IBGE.
- Ferramentas de gestão como as das agtechs organizam o dado da fazenda, mas ainda não fazem a comprovação de origem que o mercado e a regulação começam a cobrar.
Por André Garcia
O avanço de programas de crédito reduzido em troca de comprovação de sustentabilidade transformou índices de prenhez, taxas de natalidade e de desmama em ativo financeiro para o pecuarista. Os dados comprovam a eficiência do rebanho e abrem caminho para recursos de programas como o Caminho Verde Brasil, que garante crédito com juros mais baixos para quem investe na produção de baixo carbono.
É aí que entra a tecnologia de gestão: transformando a rotina da fazenda em número, e o número em garantia de crédito e acesso ao mercado. Abraçada pelas startups do agro, a proposta avança no Brasil, tendo como principal desafio tirar os pequenos e os médios produtores da era do registro no papel.
Esse é o principal público da agtech InLida, que oferece um aplicativo de gestão de rebanho. Ao Gigante 163, a fundadora e CEO, a agrônoma Gabriela Ribeiro, afirmou que mesmo entre as cerca de 30 mil propriedades cadastradas na plataforma, a maior parte ainda utiliza anotações em papel em alguma etapa do processo.
“O simples fato de registrar as informações e manter um histórico para consultas já demonstra organização e preocupação com a gestão da propriedade. Por outro lado, as ferramentas digitais ampliam significativamente esse potencial”, explica ela.
Isso porque, elas permitem armazenar grandes volumes de dados de forma estruturada, facilitando o acesso às informações e possibilitando análises mais rápidas e precisas. Esses dados podem ser transformados em indicadores de desempenho, apoiando a tomada de decisão.
Hoje, cerca de 30% da base de clientes da InLida está concentrada no Centro-Oeste, que responde por 31,4% do rebanho nacional, o maior do País, segundo o IBGE. Para Gabriela, assim como nas outras regiões, o pecuarista tende a adotar a ferramenta digital aos poucos, no próprio ritmo, e não de uma vez.
“A adoção da tecnologia acontece de forma gradual. A transformação digital é um processo de evolução, no qual, aos poucos, todos os envolvidos na cadeia da informação passam a utilizar os dados de maneira integrada, gerando mais eficiência, produtividade e resultados para a fazenda.”
Rumo à rastreabilidade
Digitalizar a gestão, no entanto, ainda não é o mesmo que comprovar origem. A própria InLida reconhece que a plataforma não cruza a localização da fazenda com bases de desmatamento, áreas embargadas ou unidades de conservação, e que validações ambientais ficam a cargo de sistemas especializados.
O dado que ela organiza é a base sobre a qual essa comprovação pode ser construída depois, não a comprovação em si. Ainda assim, é o primeiro degrau de uma escada que a maior parte do pequeno produtor de cria sequer começou a subir.
“A agricultura do Brasil já chegou ao seu limite em sentido de ganhos pelo clima. Agora é somente tecnologia”, pontuou Jorge Meza, representante da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) durante o FIAP.
Saiba mais
O Caminho Verde Brasil é um programa do Ministério da Agricultura e Pecuária voltado à recuperação de pastagens degradadas. A lógica central é oferecer crédito com juros abaixo dos praticados pelo mercado para que o produtor recupere áreas já abertas, em vez de desmatar novas, aumentando a produção sem avançar sobre vegetação nativa. Em troca do crédito facilitado, o produtor assume contrapartidas de sustentabilidade, como desmatamento zero na propriedade, certificação trabalhista e balanço anual de emissões de gases de efeito estufa.
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