Resumo:
- A tendência é de plantio mais cauteloso em Mato Grosso, com redução da área semeada no início do calendário, quando a umidade do solo ainda é baixa, avalia o vice-presidente Leste da Aprosoja MT, Diego Dall Asta.
- O critério prático para abrir a semeadura é ter umidade suficiente para que a planta atravesse de duas a três semanas sem chuva, segundo a associação.
- Os centros internacionais de meteorologia convergem em que o El Niño aumenta a probabilidade de atraso no início da estação chuvosa no Brasil Central, aponta relatório do consultor da Aprosoja MT, Clyde Fraisse.
- A emergência da soja é a fase de maior risco, porque a disponibilidade hídrica determina a formação do estande de plantas.
- Com fertilizantes e sementes em patamares historicamente elevados, o custo de um replantio pesa mais do que em safras anteriores.
- Na última passagem do fenômeno, em 2023/24, a soja mato-grossense registrou quebra próxima de 15%.
Por André Garcia
O produtor de Mato Grosso deve semear menos área no início da janela de plantio da safra 2026/27. Com previsão de atraso no início das chuvas, em função do El Niño, e insumo caro, a leitura no setor é que não vale arriscar a largada em solo seco.
A avaliação é do vice-presidente Leste da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Diego Dall Asta, e acompanha relatório do consultor da entidade, Clyde Fraisse, sobre os efeitos do El Niño na próxima temporada.
“A tendência é de um plantio com mais cautela, reduzindo, por exemplo, a área plantada no início do calendário, quando ainda há pouca umidade. O produtor não vai arriscar plantar com solo seco, chuvas esparsas ou precipitações muito antecipadas”, afirmou Dall Asta.
Intervalo de até três semanas
A régua que o produtor deve usar para decidir quando abrir o plantio é a capacidade da lavoura de atravessar um período seco logo após a semeadura. Além disso, é preciso investir em materiais adaptados aos veranicos que costumam ocorrer entre outubro e dezembro, período em que a expectativa é de menos umidade e temperatura mais alta.
“O planejamento precisa ser geral: plantar apenas com umidade suficiente para garantir uma boa germinação e um estabelecimento seguro da lavoura, pensando em um intervalo de duas a três semanas em que a planta possa suportar a falta de chuva”, orienta o vice-presidente.
Fase crítica
No relatório, Fraisse localiza onde está o risco maior. Para Mato Grosso, a fase de emergência da soja é a mais exposta, porque é a disponibilidade de água que determina a formação do estande de plantas.
O consultor pondera que a intensidade do fenômeno ainda é incerta e que o resultado depende da interação do aquecimento do Pacífico com o Atlântico Tropical e com os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.
“O consenso entre os principais centros meteorológicos internacionais indica que o fenômeno aumenta significativamente a probabilidade de atrasos no início da estação chuvosa no Brasil Central. Para os produtores de Mato Grosso, isso reforça a necessidade de uma estratégia preventiva baseada na redução de riscos”, afirmou.
O histórico dá a medida do que está em jogo. Na última passagem do El Niño, em 2023/24, a soja mato-grossense chegou a registrar quebra próxima de 15%.
Escalonar dilui o risco
As recomendações do relatório partem de um princípio: não concentrar a semeadura numa única janela. Ao escalonar, o produtor distribui a exposição, de modo que um mesmo veranico não pegue toda a lavoura no mesmo estágio.
Entram na lista a manutenção de cobertura elevada do solo, por plantio direto e plantas de cobertura, o uso de cultivares adaptadas a diferentes janelas e o acompanhamento contínuo das previsões de médio e longo prazo.
Fraisse também recomenda intensificar o monitoramento fitossanitário, porque mudanças no regime de temperatura e umidade alteram a dinâmica de pragas e doenças.
A base para essas decisões é o histórico de eventos passados. Séries do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e da Embrapa mostram recorrência de padrões regionais que ajudam a estimar risco por região.
Insumo caro estreita a margem
O que muda o peso dessas decisões nesta safra é o custo por causa dos fertilizantes e sementes, que estão mais caros.
“Em um ano como este, em que os custos de fertilizantes químicos e sementes estão em patamares historicamente elevados, o produtor precisa, mais do que nunca, fazer um plantio assertivo”, disse Dall Asta.
É a mesma leitura que Itaú BBA e Sicredi apresentaram ao projetar a safra 2026/27, com margens estreitas e crédito mais seletivo.
Safrinha entra na mesma conta
Fraisse alerta que o planejamento da segunda safra precisa ser revisto junto. Atraso no plantio da soja empurra a colheita, e a colheita empurrada comprime a janela do milho.
O consultor acrescenta que eventos dessa magnitude repercutem além da lavoura, com reflexos na logística e na comercialização dos grãos.
Saiba mais
O que é veranico – É o período de estiagem que ocorre dentro da estação chuvosa, quando a chuva para por alguns dias ou semanas em pleno verão. No Centro-Oeste, costuma aparecer entre outubro e dezembro e é mais danoso quando pega a lavoura na germinação, na emergência ou no enchimento de grãos, fases em que a planta não tem como compensar a falta de água. Diferente da seca sazonal, que é esperada e entra no planejamento, o veranico é imprevisível na data e na duração. É justamente por isso que o escalonamento da semeadura funciona como proteção: distribui a lavoura em janelas diferentes, de forma que um mesmo veranico não atinja toda a área no mesmo estágio de desenvolvimento.
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