Resumo
- Um relatório do banco JP Morgan indica que a formação de um Super El Niño pode subir a inflação global de alimentos de 2,8% em 2026 para 5% em 2027.
- A alta de preços pode se intensificar (entre 1,3 e 1,5 ponto percentual) se o clima adverso coincidir com o encarecimento do diesel e de fertilizantes vindos do Estreito de Ormuz
- O Brasil está entre os emergentes mais expostos devido ao alto peso dos alimentos na renda das famílias e à forte dependência do clima na agricultura.
- Estimativas locais apontam que a inflação de alimentos no Brasil pode alcançar pico de até 11% em 2027, encarecendo primeiro os grãos e depois as carnes.
- O alerta foca no aumento de custos de produção e repasse de preços, e não na falta de comida, já que os estoques globais servem de amortecedor.
Um Super El Niño em formação pode elevar os preços dos alimentos e ampliar a inflação global em 2027, atingindo diretamente o Brasil. O alerta foi divulgado pelo banco JP Morgan nesta semana, em relatório assinado pela economista-chefe global Nora Szentivanyi, intitulado “Food Security Is National Security: A Compounding Storm” (“Segurança alimentar é segurança nacional: uma tempestade em formação”, em tradução livre).
Segundo o banco, um El Niño forte, isoladamente, pode acrescentar 0,7 ponto percentual à inflação global dos alimentos, com o efeito máximo aparecendo entre 4 e 8 meses após o início do fenômeno.
O problema é que ele não vem sozinho: se coincidir com petróleo, diesel e fertilizantes mais caros — pressionados por disrupções ligadas ao Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do comércio marítimo mundial de fertilizantes —, o impacto combinado pode chegar a 1,3 e 1,5 ponto percentual.
Na prática, o JP Morgan projeta que a inflação global de alimentos suba de 2,8% no primeiro semestre de 2026 para 5% no mesmo período de 2027, o que adicionaria 0,6 ponto percentual à inflação geral no mundo.
Para a economista responsável pelo relatório, não se trata de um choque passageiro: a pressão sobre os preços dos alimentos deve se manter ao longo de todo o primeiro semestre de 2027.
Brasil está entre os países mais expostos
O JP Morgan aponta Índia, Indonésia, Brasil e Colômbia como os mercados emergentes mais vulneráveis ao fenômeno. A explicação é dupla: nesses países, os alimentos pesam mais no orçamento das famílias, e a produção agrícola sofre forte influência das condições climáticas. Já economias mais desenvolvidas, como as da Europa, tendem a sentir um efeito direto menor.
No caso brasileiro, uma pesquisa do Banco Central divulgada em junho estimou que o El Niño pode acrescentar 0,3 ponto percentual à inflação de 2026 e 0,4 ponto em 2027.
Um levantamento da consultoria MB Associados vai além: projeta que a inflação da alimentação no domicílio pode fechar 2027 entre 7,5% e 9,5%, com pico entre agosto e novembro daquele ano podendo chegar a 11% — e um acréscimo de até 0,9 ponto percentual ao IPCA atribuído ao fenômeno climático.
Segundo a consultoria, a pressão deve avançar em etapas: primeiro sobre os grãos, no segundo semestre de 2027, e depois sobre as proteínas animais, incluindo a carne bovina.
O que isso não significa
O próprio JP Morgan faz uma ressalva importante: o alerta não é sobre falta generalizada de alimentos. Os estoques globais de grãos e arroz ainda funcionam como uma reserva capaz de amortecer parte de uma eventual queda na produção.
O risco concentrado está nos preços — a combinação de clima adverso, energia mais cara e fertilizantes em alta que pode encarecer os custos de produção agrícola e prolongar a pressão inflacionária ao longo de 2027.
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