Resumo:
- Quatro anos de pesquisa do projeto EcoSiPas indicam que manter árvores nativas na pastagem conserva a biodiversidade do Cerrado sem tirar a terra da produção.
- Em áreas da bacia do rio Pardo (MG), os pesquisadores encontraram até 20 espécies de árvores nos sistemas silvipastoris, sem diferença significativa em relação ao Cerrado nativo.
- O projeto estuda formas de remunerar o produtor: créditos de carbono, certificações e valorização de produtos nativos.
- O baru tem certificação orgânica e cadeia de fornecimento em estruturação para o mercado externo, além de estudo para aprovação como novel food na União Europeia.
- O crédito de carbono depende da adicionalidade: vale a conversão de pastagem degradada, não a vegetação que já está na propriedade.
- O baru também ocorre em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, o que amplia o alcance dos resultados no Centro-Oeste.
Por André Garcia
Manter árvores nativas em áreas de pastagem pode ajudar a conservar a biodiversidade do Cerrado sem retirar a terra da produção agropecuária e ainda abrir novas possibilidades de renda ao produtor. É o que indicam resultados de quatro anos do projeto EcoSiPas, conduzido pela Embrapa e instituições do Brasil, Alemanha e Estados Unidos nas bacias dos rios Urucuia e Pardo, em Minas Gerais.
O trabalho avaliou sistemas silvipastoris que combinam árvores nativas, pastagens e criação de gado no mesmo espaço. Em áreas analisadas na bacia do rio Pardo, os pesquisadores encontraram até 20 espécies de árvores, número que não apresentou diferença significativa em relação às amostras de Cerrado nativo.
As conclusões podem representar oportunidades para toda a região Centro-Oeste, já que o baru, um dos produtos avaliados como alternativa de renda, também ocorre em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul.
Conservação pode virar receita
Uma das frentes do projeto busca formas de remunerar o produtor pelos benefícios ambientais das propriedades. Em parceria com uma empresa europeia especializada em carbono, os pesquisadores definiram requisitos para viabilizar a geração de créditos nas regiões estudadas.
Pelo princípio da adicionalidade, a remoção de gases de efeito estufa precisa ocorrer em decorrência do projeto, e não ser algo que aconteceria normalmente. Na prática, o crédito está associado à conversão de pastagens degradadas em sistemas com árvores, e não à vegetação que já existe na propriedade.

Crédito: Embrapa
Baru pode abrir novos mercados
O baru é encontrado em abundância nos sistemas silvipastoris da bacia do rio Urucuia. O projeto trabalha com a certificação orgânica do fruto, com a estruturação de uma cadeia de fornecimento voltada ao mercado externo e com os caminhos regulatórios para sua aprovação como novo alimento (novel food) na União Europeia.
Pesquisa deve orientar políticas públicas
Mais de 300 entrevistas com produtores rurais e extensionistas avaliaram os fatores que levam à adoção desses sistemas. Na bacia do rio Pardo, produtores com maior percepção ambiental se mostraram mais propensos a adotar o modelo.
Os resultados estão sendo discutidos entre 22 e 24 de setembro, em Brasília, e devem se transformar em recomendações para políticas públicas e ferramentas de apoio à decisão de produtores e gestores.
O EcoSiPas é financiado pelo Ministério da Agricultura, Alimentação e Identidade Regional da Alemanha. No Brasil, participam, entre outras instituições, a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Saiba mais
O que é adicionalidade? É o critério que define se uma redução ou remoção de gases de efeito estufa pode virar crédito de carbono. Pelo princípio, só conta o que acontece por causa do projeto. Se a propriedade já mantém a vegetação e continuaria mantendo de qualquer forma, o carbono estocado ali não gera crédito. É por isso que o EcoSiPas trabalha com a conversão de pastagens degradadas em sistemas com árvores: a captura passa a existir em decorrência da mudança de manejo, e não da situação que já estava posta.
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