Resumo:
- O principal obstáculo para ampliar a restauração do Cerrado não é o preço do carbono, e sim a estrutura para executar os projetos, com viveiros, mão de obra, financiamento, monitoramento e segurança jurídica, segundo estudo da Universidade de Brasília (UnB) nas quatro unidades federativas do Centro-Oeste.
- No cenário analisado, o crédito de carbono vale R$ 220 por tonelada de CO₂ equivalente, e o custo médio para gerá-lo fica entre R$ 70 e R$ 88, em horizonte de 30 anos.
- A pesquisa aponta o gasto público ambiental qualificado como “capital semente” de um ciclo que passa por geração de receitas e reinvestimento até a redução do desmatamento, com base em dados de 2001 a 2024.
- Para a autora, a professora Fátima de Souza Freire, o Cerrado, que ocupa cerca de 24% do território nacional, deve ser reconhecido como patrimônio natural que produz valor para a sociedade.
- O estudo ficou em segundo lugar no IX Prêmio Serviço Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal, concedido em 2025.
Por André Garcia
Na véspera do Dia do Cerrado, celebrado nesta sexta-feira, 11/9, um estudo da Universidade de Brasília (UnB) aponta que o preço do carbono não é o principal obstáculo para ampliar a restauração do bioma em um cenário econômico favorável. Os principais desafios estão na estrutura necessária para executar os projetos, incluindo viveiros, mão de obra capacitada, financiamento, monitoramento e segurança jurídica.
No cenário analisado, o crédito de carbono vale R$ 220 por tonelada de CO₂ equivalente, e o custo médio para gerá-lo fica entre R$ 70 e R$ 88 por tonelada, em um horizonte de 30 anos. O valor de venda dos créditos pode chegar a até três vezes o custo.
O estudo avaliou cenários nas quatro unidades federativas do Centro-Oeste e analisou dados de desmatamento e de gastos públicos realizados para combatê-lo entre 2001 e 2024. O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e ocupa cerca de 24% do território nacional.
“O grande desafio é governança. Precisamos de viveiros, mão de obra capacitada, financiamento para os primeiros anos, monitoramento confiável, segurança jurídica, articulação entre municípios e estados e capacidade para executar projetos durante décadas”, afirmou a professora Fátima de Souza Freire, da UnB.
Gasto público abre ciclo de restauração
A pesquisa aponta o gasto público ambiental qualificado como “capital semente” para ampliar a capacidade de restauração do bioma.
“O Estado investe em capacidade institucional, fiscalização, prevenção de incêndios, viveiros, restauração, monitoramento e sistemas de medição e verificação. Isso melhora a qualidade e a credibilidade dos projetos ambientais e pode ampliar sua capacidade de gerar receitas, inclusive por meio do mercado de carbono”, explicou Fátima.
De acordo com a pesquisadora, esse investimento pode iniciar um ciclo que passa pelo aumento da capacidade ambiental, desenvolvimento de projetos com maior integridade, geração de receitas e reinvestimento até chegar à redução do desmatamento.
“Não é apenas o volume de dinheiro que importa. Importam a regularidade, a qualidade do gasto e a capacidade técnica de transformar orçamento em resultado ambiental”, destacou.
Valor do Cerrado
Fátima defende que o Cerrado deixe de ser analisado apenas como área de proteção e passe a ser reconhecido como patrimônio natural que produz valor para a sociedade. A restauração defendida pela pesquisadora também envolve recuperação da água, criação de empregos, geração de renda e redução de custos futuros relacionados à mitigação dos efeitos da degradação.
“Estamos diante de uma janela de oportunidade. A tecnologia existe, o mercado de carbono está sendo estruturado no Brasil e os números indicam viabilidade. O desafio agora é transformar potencial em escala. E isso exige governança, financiamento e continuidade das políticas públicas”, afirmou.
A pesquisa “Quanto Custa Restaurar o Cerrado? Uma Avaliação de Viabilidade e Impacto Climático” foi desenvolvida por Fátima de Souza Freire e Francielle Voltarelli e ficou em segundo lugar no IX Prêmio Serviço Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal, concedido em 2025.
Para a pesquisadora, o reconhecimento mostra que questões ambientais podem ser analisadas do ponto de vista econômico e reforça o papel da universidade pública na formulação de políticas concretas.
“A pesquisa mostra que padrões científicos, transparência dos dados e formação de capacidades podem reduzir incertezas e ajudar a transformar o potencial econômico do Cerrado em restauração efetiva”, avaliou Fátima.
Saiba mais
O que é crédito de carbono? – Crédito de carbono é um certificado que representa uma tonelada de CO₂ equivalente que deixou de ser emitida ou foi retirada da atmosfera. Na restauração florestal, ele corresponde ao carbono absorvido pela vegetação durante o crescimento. Para ser vendido, o crédito passa por medição e verificação de auditores independentes. Os compradores são empresas e governos que querem compensar emissões ou cumprir metas climáticas, no mercado voluntário ou no regulado. No Brasil, o mercado regulado foi instituído pela Lei nº 15.042, de dezembro de 2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE).
LEIA MAIS:
Restauração de vegetação nativa dá salto de 158% no Brasil
COP30: Restauração florestal ganha seguro no Brasil
Restauração é chave para garantir saúde dos rios do Pantanal
Restauração da Amazônia terá R$ 79 milhões para sete estados
Floresta Viva terá R$ 100 milhões para restauração de biomas
Restauração florestal atrai investimento internacional para MT

