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Certificação e bioinsumos: o futuro do algodão no Brasil

Certificação e bioinsumos: o futuro do algodão no BrasilAbertura da Colheita do Algodão.no Mato Grosso. Foto: CNA

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Resumo:

  • Cerca de 37% da produção mundial de algodão foi coberta por programas de certificação ou protocolos de sustentabilidade em 2024/25, segundo o Materials Market Report 2026, da Textile Exchange.
  • O Algodão Brasileiro Responsável (ABR), da Abrapa, cobriu cerca de 3,3 milhões de toneladas em 2024/25, 90% da produção nacional e 13% do algodão mundial, segundo a Textile Exchange.
  • O algodão orgânico responde por cerca de 2,8% da produção mundial, na faixa de 700 mil toneladas anuais, e cresce abaixo do ritmo esperado pela indústria, segundo a Textile Exchange.
  • Ensaios apresentados no 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA) indicaram a faixa de 160 a 180 quilos de nitrogênio por hectare como a de melhor aproveitamento nas quatro últimas safras avaliadas.
  • O Laboratório de Microbiologia do Solo e Biotecnologia Agrícola da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Sinop, analisou 640 amostras de bioinsumos usados no norte do estado entre 2020 e 2025 e identificou agente contaminante em uma das avaliações.

 

Por André Garcia

Em meio a desafios climáticos, custos de produção e exigências cada vez maiores dos mercados internacionais, o futuro da produção de algodão depende de uma combinação de eficiência no uso de recursos, preservação do solo e da biodiversidade e novas ferramentas biológicas e genéticas.

Foi o que apontaram pesquisadores e representantes do setor durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), realizado na semana passada em Belo Horizonte (MG).

As discussões passaram por diferentes modelos e práticas de produção, da agroecologia e do algodão orgânico à adubação eficiente, controle biológico, biotecnologia e certificação. A seguir, reunimos as principais tendências apresentadas pelos especialistas. Confira:

Mercado busca fibras com atributos de sustentabilidade

Cerca de 37% da produção mundial de algodão foi coberta por programas de certificação ou protocolos com critérios de sustentabilidade em 2024/25, segundo o Materials Market Report 2026, da Textile Exchange. O algodão orgânico, porém, responde por cerca de 2,8% e permanece há alguns anos na faixa de 700 mil toneladas anuais.

“O algodão orgânico é algo que a indústria sempre desejou. E essa produção existe e vem crescendo, mas não no ritmo esperado”, avalia Silvio Moraes, senior engagement manager para a América Latina da Textile Exchange.

Para Moraes, o algodão agroecológico brasileiro, associado à agricultura familiar e a práticas regenerativas, tem atributos para se diferenciar no mercado. Segundo ele, há demanda internacional, mas o avanço depende de uma cadeia mais competitiva e profissionalizada, capaz de gerar renda às famílias produtoras.

Eficiência no uso de nutrientes

Mais fertilizante não significa, necessariamente, mais produtividade. Em ensaios apresentados no congresso, doses maiores de nitrogênio aumentaram a massa vegetal, mas não a produtividade na mesma proporção. Nas quatro últimas safras avaliadas, a faixa de melhor aproveitamento ficou entre 160 e 180 quilos de nitrogênio por hectare.

“À medida que se aumenta a quantidade de nitrogênio, a eficiência cai imensamente. Por isso, é necessário que se apliquem doses controladas de nitrogênio”, afirmou Rodrigo de Oliveira Lima, da SNP – Solos e Nutrição de Plantas Consultoria e Pesquisa.

Mudanças no manejo também melhoram os resultados. Uma das áreas avaliadas pela SLC Agrícola teve aumento de 128 arrobas na produtividade sem elevar a quantidade de fertilizantes, com reciclagem de nutrientes, revisão dos cultivos e melhor exploração do solo pelas raízes.

Bioinsumos avançam no campo

O Brasil já é o maior produtor e consumidor de agentes de controle biológico do mundo, segundo dados apresentados no congresso. O desafio agora é garantir a qualidade do que chega à lavoura.

Entre 2020 e 2025, o Laboratório de Microbiologia do Solo e Biotecnologia Agrícola da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Sinop, analisou 640 amostras de bioinsumos usados no norte do estado, entre produtos comerciais e multiplicações feitas nas próprias fazendas. Em uma das avaliações, foi identificado agente contaminante.

Para a pesquisadora Flávia Sampaio Alexandre, que apresentou os resultados, a qualidade depende de todas as etapas, da produção à aplicação, e da capacitação de quem lida com a tecnologia. “O futuro dos bioinsumos depende de confiança. E a confiança começa com a qualidade”, afirmou.

Certificação e agricultura regenerativa ganham espaço

A certificação ganha espaço como ferramenta de acesso a mercados. Segundo participantes do painel sobre o tema no CBA, ela também traz ganhos de gestão, mais controle dos processos e redução de riscos para as fazendas, porque exige auditoria, registro de dados e comprovação das práticas adotadas no campo.

O Brasil lidera o volume de algodão certificado no mundo. O Algodão Brasileiro Responsável (ABR), programa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), cobriu cerca de 3,3 milhões de toneladas em 2024/25, 90% da produção nacional e 13% do algodão mundial, segundo a Textile Exchange.

A agricultura regenerativa também ganha protocolo próprio. O regenagri, certificação que avalia saúde do solo, uso da água e biodiversidade, passou de 0,9 milhão para 1,9 milhão de toneladas de algodão no mundo entre 2023/24 e 2024/25, segundo a Textile Exchange.

Saiba mais

O que é o ABR? O Algodão Brasileiro Responsável é o programa de certificação da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), criado em 2009. A adesão é voluntária. As fazendas são avaliadas em critérios de legislação trabalhista e ambiental, boas práticas agrícolas, conservação dos recursos naturais, segurança e bem-estar dos trabalhadores e rastreabilidade, com metas de melhoria contínua. Desde 2014, o ABR é reconhecido como equivalente ao padrão da Better Cotton Initiative (BCI), o que permite aos participantes obter também o licenciamento internacional.

 

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