Resumo
- Após dois anos de seca severa, a Amazônia recuperou sua superfície de água em 2025, fechando o ano 2,6% acima da média histórica
- Pará e Amazonas lideraram os ganhos, mas 37% das sub-bacias do bioma ainda ficaram abaixo da média
- No Brasil, a superfície de água cai década após década: foram 2,6 milhões de hectares perdidos entre 1985-94 e 2015-24
- INPE aponta mais de 80% de chance de um novo El Niño no 2º semestre de 2026, que pode reverter a recuperação dos rios
Por André Garcia
Depois de dois anos seguidos de seca severa, que baixaram o nível dos rios e isolaram comunidades inteiras, a Amazônia teve um respiro em 2025. A superfície coberta por rios, lagos e áreas alagadas somou 11,5 milhões de hectares no ano, 287 mil acima da média histórica, uma alta de 2,6%, segundo dados divulgados nesta terça, 16/6, pelo MapBiomas.
O impacto vai muito além do bioma, que concentra 61,4% de toda a superfície de água do Brasil. A seca ou a cheia dos rios da região atinge desde a navegação e a pesca das comunidades ribeirinhas até a umidade que abastece as chuvas e mantém as lavouras do Centro-Sul, levada pelos rios voadores.
De acordo com o MapBiomas, a recuperação foi puxada pela volta das chuvas, que em algumas áreas ficaram até 1.000 mm acima do registrado em 2024. Foi o que garantiu ao Pará o maior ganho entre os estados amazônicos, com 142 mil ha a mais do que a média histórica, uma área de água quase do tamanho da cidade de São Paulo. O Amazonas aparece em segundo lugar, com 87 mil ha a mais.
Já o Pantanal foi o bioma que mais sofreu com a falta de água no Brasil em 2025. A superfície coberta por rios, lagoas e áreas alagadas somou 679 mil hectares (ha) no ano, 56% abaixo da média histórica de 1,56 milhão de ha,
Recuperação desigual
A melhora, porém, não chegou de forma igual. Mesmo com o ano positivo, 20 das sub-bacias amazônicas, o equivalente a 37% delas, registraram valores menores que a média histórica. Para Bruno Ferreira, pesquisador da equipe da Amazônia do MapBiomas e do Imazon, os números merecem atenção.
“Mesmo com essa recuperação, a situação ainda é preocupante no longo prazo, já que na região eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes, além de sinais de instabilidade no regime hídrico, influenciados tanto pelas mudanças climáticas quanto pelas transformações no uso da terra”, diz ele.
Brasil mais seco
O alívio na Amazônia, porém, não muda o quadro nacional. A superfície de água do Brasil vem encolhendo década após década: entre 1985-1994 e 2015-2024, o país perdeu 2,6 milhões de hectares cobertos por água, uma área quase do tamanho de Alagoas.
Especialistas reforçam que, no ano passado, o número voltou a subir, mas seguiu abaixo do normal. Foram 18,2 milhões de hectares de superfície de água no período, 5,3% a mais que em 2024, ainda assim abaixo da média histórica, de 18,5 milhões. Hoje, a água cobre apenas 2% do território nacional.
“Ao longo das últimas quatro décadas, observa-se uma tendência de redução da superfície de água no Brasil. Como se trata de um parâmetro naturalmente dinâmico, não podemos olhar apenas para o dado de 2025 de forma isolada”, explica Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água.
Alívio é ameaçado por El Niño
A seca que assolou a região amazônica em 2023 e 2024 coincidiu com o último El Niño, fenômeno de aquecimento do Pacífico que reduz as chuvas no norte e leste do bioma. Assim, a volta das chuvas em 2025 ajuda a explicar a recuperação da superfície de água registrada agora.
O quadro pode se inverter de novo em 2026. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) aponta mais de 80% de chance de um novo El Niño no segundo semestre, e projeções do Centro Europeu de Previsões de Tempo de Médio Prazo (ECMWF) indicam um fenômeno possivelmente recorde, com anomalias acima de 2°C no Pacífico.
“O déficit de precipitação previsto para as bacias hidrográficas da Amazônia constitui fator determinante para a redução dos níveis fluviais, com impactos que se estendem além do período seco, em função da defasagem entre a ocorrência das chuvas nas cabeceiras e seus efeitos ao longo das bacias”, diz trecho da nota técnica do INPE.
Saiba mais
Rios voadores: São “correntes” de umidade que se formam quando a floresta amazônica libera água para o ar. Esse vapor viaja com os ventos por milhares de quilômetros e cai como chuva em outras regiões do país, ajudando a abastecer lavouras e reservatórios bem longe da Amazônia.
El Niño: É um aquecimento fora do normal das águas do oceano Pacífico que se repete de tempos em tempos e bagunça o clima no mundo inteiro. No norte e no leste da Amazônia, costuma significar menos chuva — e, por consequência, rios mais baixos.
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