Resumo
- Em 2025, a superfície de água do Pantanal ficou 56% abaixo da média histórica, o pior resultado entre os biomas brasileiros
- Foi o único bioma com todos os 12 meses do ano abaixo da média
- Mato Grosso do Sul e Mato Grosso lideraram as perdas no País, com Corumbá e Cáceres entre os municípios mais afetados
- Pesquisadores apontam a virada de cheias para secas prolongadas desde 2019 como marca da nova dinâmica do bioma
Por André Garcia
O Pantanal foi o bioma que mais sofreu com a falta de água no Brasil em 2025. A superfície coberta por rios, lagoas e áreas alagadas somou 679 mil hectares (ha) no ano, 56% abaixo da média histórica de 1,56 milhão de ha, segundo dados divulgados nesta terça, 16/6, pelo MapBiomas.
Apesar de uma melhora de 34% em relação a 2024, quando foram registrados 506 mil ha em meio a uma seca histórica, o patamar de 2025 representa menos da metade da quantidade de água normalmente observada na região.
O Pantanal também foi o único bioma em que todos os 12 meses do ano registraram água abaixo da média. Os números preocupam porque a região vive de um ritmo: todo ano, grandes áreas inundam e depois secam, e esse vai e vem regula a reprodução dos peixes, a vegetação e a fauna.
Já a Amazônia recuperou sua superfície de água em 2025, fechando o ano 2,6% acima da média histórica.
Cheias cada vez menores
A última grande cheia, contudo, foi registrada em 2018 — e já era 52% menor que a de 1988, a maior desde o início do monitoramento. Em 2024, veio o ano mais seco da série, e 2025 entrou para o mapeamento como um ano sem cheia: a água ficou 82% abaixo do pico de 1988.
Não à toa, o bioma apresenta a maior tendência de perda do País: 97,1% de sua área mostra algum grau de redução da superfície de água ao longo dos últimos 41 anos.
“A dinâmica das águas no Pantanal mudou, a década de 80 foi marcada por grandes inundações, mas desde 2019 a região enfrenta secas prolongadas. Os períodos secos e úmidos são essenciais na manutenção da biodiversidade no bioma”, explica Mariana Dias, pesquisadora da equipe do Pantanal do MapBiomas.
As maiores perdas do País
A situação puxou para baixo Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, os dois estados que mais perderam superfície de água no ano passado, com redução de 527 mil ha e 336 mil ha em relação à média histórica. Juntos, eles formam a Região Hidrográfica do Paraguai, que perdeu mais da metade de sua água: 53,8%, ou 877 mil ha.
No recorte por município, os que tiveram a maior retração de todo o Brasil também estão na região: Corumbá, em Mato Grosso do Sul, com 474 mil ha a menos, e Cáceres, em Mato Grosso, com 189 mil ha a menos.
“A Bacia do Alto Paraguai e os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul refletem essa dinâmica registrada pela variação da água no bioma”, acrescenta Mariana.
Brasil mais seco
A seca se encaixa em um quadro nacional. A superfície de água do Brasil encolhe década após década e, em 2025, ficou em 18,2 milhões de hectares, ainda abaixo da média histórica, de 18,5 milhões.
“Ao longo das últimas quatro décadas, observa-se uma tendência de redução da superfície de água no Brasil. Como se trata de um parâmetro naturalmente dinâmico, não podemos olhar apenas para o dado de 2025 de forma isolada”, explica Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água.
Rios ainda baixos em 2026
A estação chuvosa de 2025-2026 trouxe alguma recuperação aos rios da região, mas não o suficiente para reverter o déficit acumulado desde 2019. Segundo a Embrapa Pantanal, na régua de Ladário (MS), ponto de referência para a planície pantaneira, o nível marcava 1,95 metro em 19 de abril, cerca de 1,2 metro abaixo da mediana de 3,18 metros.
Além disso, as chuvas entre outubro de 2025 e março de 2026 ficaram de 10% a 12% abaixo da média na Bacia do Alto Paraguai.
“No contexto hidrológico do Pantanal, a geração de cheias depende não apenas do volume total precipitado, mas da persistência das chuvas ao longo de extensas áreas do planalto e da sincronização das contribuições hidrológicas”, explica Carlos Padovani, pesquisador da Embrapa Pantanal.
Pesa ainda o que os pesquisadores chamam de memória hidrológica. Como o solo, os aquíferos e os canais estão secos desde 2019, boa parte da chuva é absorvida para repor esses estoques antes de virar escoamento, e a onda de cheia chega enfraquecida à planície.
Saiba mais
Superfície de água: É toda a área da paisagem coberta por água: rios, lagoas e regiões alagadas, vista de cima, por satélite. Não mede a quantidade nem a profundidade da água, e sim o tamanho do espaço que ela ocupa no território. Quando essa superfície diminui, é sinal de que rios e lagoas estão encolhendo.
Memória hidrológica: É o efeito de “atraso” causado por anos seguidos de seca. Quando o solo e os reservatórios subterrâneos estão secos há muito tempo, absorvem boa parte da chuva que cai antes que ela chegue aos rios. Por isso, mesmo um ano de chuva razoável pode não formar uma cheia normal: a água é usada primeiro para repor o que faltava.
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