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Calor e seca reduzem fertilidade ao tirar carbono do solo

Calor e seca reduzem fertilidade ao tirar carbono do soloCalor e falta de água fazem solo perder 12,2% de carbono. Foto: Embrapa

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Mais um estudo vem confirmar o que nossos pesquisadores já tinham detectado: o solo está perdendo carbono. Isso é uma péssima notícia para o produtor. Menos carbono no solo significa menor fertilidade e menor capacidade de retenção da água.

Publicado na revista Nature Climate Change, um experimento de 12 anos conduzido em Oklahoma, nos Estados Unidos, revelou que o solo — que armazena até três vezes mais carbono que a atmosfera — pode passar de aliado a vilão dependendo do clima. Os cientistas monitoraram 48 parcelas de pastagem sob cenários de calor e variação de umidade para entender como essa reserva se comporta em condições extremas.

Os resultados mostram que o calor sozinho não é o único culpado, mas sim a sua combinação com a falta de água. Em ambientes quentes e úmidos, o solo chegou a ganhar 6,7% de carbono. No entanto, quando o calor veio acompanhado da seca, houve uma perda de 12,2%, atingindo inclusive frações de carbono antigas e estáveis, que antes eram consideradas seguras e difíceis de serem liberadas.

A explicação para esse fenômeno está na vida microscópica debaixo da terra. Segundo os autores do estudo, os microrganismos do solo mudam seu comportamento: em períodos de seca, eles aceleram o metabolismo e passam a consumir reservas profundas de carbono para sobreviver, liberando o elemento na forma de dióxido de carbono.

Já quando há umidade, esses organismos priorizam o crescimento, o que ajuda a manter o carbono guardado no chão.

Estudo brasileiro

Essa tendência de perda de carbono no solo já havia sido mostrada por cientistas brasileiros da USP (Esalq e CCarbon), Embrapa e Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).  Em fevereiro, eles divulgaram uma pesquisa em que pela primeira conseguiram calcular o estoque de carbono original do País, antes das intervenções humanas, e medir o tamanho da “dívida” acumulada pela mudança no uso da terra.

O resultado mostrou que a transformação de vegetação nativa em áreas de lavoura e pastagem nos seis biomas do Brasil gerou um “buraco” de 1,4 bilhão de toneladas de carbono na camada superficial do solo (até 30 cm), o que déficit equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ na atmosfera.

As descobertas acendem um alerta sobre como o aquecimento global pode ser acelerado. O estudo reforça que as mudanças na umidade do solo são determinantes para o equilíbrio do planeta e, principalmente, para a sustentabilidade da produção no campo, que depende diretamente dessa “esponja” de fertilidade e água que é o carbono orgânico.

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