Por André Garcia
Líder na produção de madeira nativa da Amazônia, Mato Grosso tem quase 40% da exploração ocorrendo sem autorização. Levantamento do Instituto Centro de Vida (ICV) e da rede SIMEX mostra que, entre 2010 e 2023, a atividade avançou sobre 2,95 milhões de hectares, dos quais 1,15 milhão não possuíam plano de manejo ou licença oficial.
No mesmo período, o estado respondeu, em média, por 44% das transações de madeira em tora no bioma, o equivalente a cerca de 64 milhões de metros cúbicos, além de 40% de outros produtos madeireiros. A produção é majoritariamente processada localmente, com índice de industrialização de 99,45%, o que indica uma cadeia estruturada e com forte presença regional.
Esse protagonismo, no entanto, convive com desafios crescentes. Em 2024, o estado registrou queda de 38% nas vendas para o mercado interno, enquanto as exportações avançaram 81%, com Estados Unidos, China e países europeus entre os principais destinos. A mudança de perfil intensifica a cobrança por rastreabilidade e conformidade ambiental.
“O mercado, cada vez mais, exige informações sobre origem, legalidade e regularidade socioambiental dos produtos florestais. Esse é um ponto estratégico para a indústria madeireira, e Mato Grosso tem oportunidade de avançar ainda mais nesse quesito”, afirma Leonardo Sobral, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).
Pressão por legalidade expõe fragilidade na cadeia
A análise aponta que a exploração madeireira no estado ainda se concentra em um grupo restrito de espécies, como cedrinho, cupiúba, mandioqueira e itaúba, enquanto outras, como ipê e cumaru, passaram a enfrentar maior controle internacional, reduzindo sua disponibilidade.
Ao mesmo tempo, a presença de áreas exploradas sem autorização mostra limitações na governança da atividade. A sobreposição entre produção em escala e controle ambiental ainda é um dos principais desafios para consolidar o manejo sustentável no estado.
Segundo os dados, cerca de 1,8 milhão de hectares estiveram sob regime de Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS) no período analisado. Para garantir a sustentabilidade da atividade, seriam necessários mais 3,24 milhões de hectares sob manejo, respeitando ciclos de regeneração de 25 anos.
“Ainda é pouco. Para manter a atividade em níveis sustentáveis econômica, comercial e ambientalmente, são necessários mais 3,24 milhões de hectares sob regime de PMFS e que respeitem ciclos de 25 anos para a regeneração natural da floresta”, avalia Sobral.
Produção está no norte do estado
Os municípios de Aripuanã, Colniza e Juara concentram cerca de um terço da área de manejo florestal do estado. Os dois primeiros lideram o ranking, cada qual com 13% da produção total de toras no período estudado, enquanto Juara figura em terceiro lugar, com 9,6% da produção.
Apesar da vocação florestal, parte relevante da exploração sem autorização também se concentra nesses territórios. Aripuanã, Nova Maringá e Colniza respondem por 22% da área explorada de forma irregular, segundo o levantamento.
Rastreabilidade e diversificação são desafios
A análise do Imaflora indica que Mato Grosso reúne condições para ampliar sua liderança na produção sustentável de madeira nativa, com base florestal significativa, parque industrial estruturado e demanda internacional em crescimento.
Para isso, no entanto, será necessário avançar na rastreabilidade da produção, ampliar a área sob manejo e diversificar espécies e produtos.
“Em um mercado que já não separa competitividade de sustentabilidade, a atividade madeireira tem o desafio de ordenar, monitorar e fiscalizar os territórios onde atua”, conclui Sobral.
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