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Seca do El Niño atinge em cheio a agropecuária na Amazônia

Seca do El Niño atinge em cheio a agropecuária na AmazôniaAnálise comparou os três meses mais críticos para os biomas. Foto: Divulgação/Polícia Federal

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Resumo:

  • No El Niño de 2023/24, as áreas de agropecuária da Amazônia registraram 178 mm de chuva abaixo da média histórica, a maior redução entre todos os biomas brasileiros nos três eventos analisados
  • O El Niño de 2015/16 provocou maior aquecimento do oceano, mas foi o de 2023/24 que teve o impacto mais forte sobre as chuvas no país, o que pode estar associado ao uso da terra
  • A perda de chuva foi maior nas áreas de agropecuária na Amazônia, na Caatinga e no Pantanal; no Cerrado e no norte da Mata Atlântica, o efeito recaiu sobre as áreas de vegetação nativa
  • No Pampa e na porção sul da Mata Atlântica o fenômeno produz o efeito inverso, com excesso de chuva que provoca perdas nas lavouras e erosão do solo

 

Por André Garcia

A cada nova ocorrência do El Niño, a seca na Amazônia fica mais severa e atinge, principalmente, áreas ocupadas por pasto e lavoura. É o que mostra o cruzamento de dados divulgado nesta quarta-feira, 12/8, pelo Mapbiomas, que acende o alerta para os próximos meses, quando deve começar o período mais crítico do fenômeno.

De acordo com o levantamento, no último El Niño (2023/24), as áreas de agropecuária na região ficaram 178 mm abaixo da média histórica de chuva — a maior redução registrada entre todos os biomas.

A análise comparou as anomalias de chuva entre setembro e novembro, quando os extremos de precipitação são mais críticos, em três eventos recentes: 1997/98, 2015/16 e 2023/24. Os resultados indicam que, apesar de 2015/16 ter registrado maior aquecimento do oceano, o pior impacto sobre as chuvas foi o de 2023/24.

“O uso da terra no Brasil pode estar contribuindo. Da mesma forma como as mudanças climáticas estão tornando os efeitos [do El Niño] mais graves, a gente está vendo que provavelmente tem um efeito também sobre o uso da terra”, diz o coordenador geral do MapBiomas, Tasso Azevedo.

Essa correlação ainda deve ser aprofundada em novas análises da entidade, que aponta que, entre 1985 e 2025, a vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro. Os números vêm desacelerando: em 2025, o Brasil desmatou menos de um milhão de hectares, o menor volume da série histórica, iniciada em 2019. Mas isso pode não ser suficiente.

“Essa desaceleração imprime um ritmo menor de transformação da cobertura da terra, porém muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas, o que afeta a sua resiliência aos eventos climáticos extremos, como o El Niño iniciado em 2026″, pondera Tasso.

Comportamento varia entre biomas

Na Amazônia, na Caatinga e no Pantanal, a perda de chuva foi maior nas áreas de agropecuária do que nas de vegetação nativa. No Cerrado e no norte da Mata Atlântica, o padrão se inverte. “O efeito maior foi nas áreas de floresta: elas perderam mais chuva proporcionalmente do que as áreas de agricultura”, diz Azevedo.

O Cerrado perdeu 34% de sua vegetação nativa e chegou a 2025 praticamente dividido ao meio, com 49,6% de cobertura nativa e 49,5% de uso antrópico. No bioma, a seca se agrava a cada evento em ritmo mais acelerado sobre a vegetação nativa.

Já no Pantanal, que perdeu 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados, o déficit chegou a 154 mm abaixo da média em 2023/24. O ano de 2024 foi o mais seco de toda a série histórica mapeada.

Tasso também lembra que nem todo o país seca durante o El Niño. No Pampa e na porção sul da Mata Atlântica, o fenômeno produz o efeito oposto, com aumento recorrente de precipitação. No Pampa, o excesso de chuva foi maior nas áreas agropecuárias do que nas de vegetação nativa em dois dos três eventos analisados.

“Esse excesso de chuvas nas áreas agropecuárias provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas, o que é agravado pela redução da vegetação nativa, que atua na proteção do solo e na maior infiltração da água da chuva”, explica Eduardo Vélez, da equipe do Pampa no MapBiomas.

 

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