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Sombra de árvores pode matar plantas rasteiras no Cerrado

Sombra de árvores pode matar plantas rasteiras no CerradoSombras impedem as plantas rasteiras de produzir energia. Foto: Biota

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Resumo

  • A falta de incêndios naturais está fazendo as árvores se multiplicarem no Cerrado, transformando áreas abertas em matas fechadas e extinguindo a vegetação rasteira.
  • Cientistas descobriram que as plantas rasteiras não somem apenas por rejeitarem a sombra, mas porque o bloqueio da luz solar as impede de produzir energia, esgotando suas reservas.
  • Na mata fechada, a luz solar que chega ao chão fica abaixo do mínimo necessário para a sobrevivência das plantas, que passam a consumir os nutrientes da própria raiz até morrerem.
  • As gramíneas são as primeiras a desaparecer devido às raízes pequenas, enquanto espécies com grandes sistemas subterrâneos conseguem sobreviver por décadas com o estoque antigo.

O Cerrado brasileiro está mudando de cara. Conhecido por suas paisagens abertas, onde árvores retorcidas dividem espaço com um tapete de gramas e pequenas plantas, o bioma enfrenta um fenômeno chamado “adensamento lenhoso”.

De acordo com reportagem da Agência Fapesp, a ausência prolongada de incêndios naturais tem feito as árvores se multiplicarem sem controle, transformando a savana aberta em mata fechada. O principal impacto disso é o desaparecimento drástico da vegetação rasteira, que forma a base da biodiversidade da região.

Até então, a ciência acreditava que essas plantas de pequeno porte sumiam simplesmente porque não suportavam a sombra. No entanto, um estudo publicado por pesquisadores da Unesp na revista Annals of Botany trouxe uma nova explicação: na verdade, sob a sombra das árvores, essas plantas esgotam suas reservas de energia e morrem de “fome”.

Os pesquisadores apelidaram o chão da mata fechada de “Reino da Inanição”. Em áreas abertas, a vegetação rasteira recebe um banho de sol essencial para a fotossíntese. Mas, quando as árvores tomam conta, a quantidade de folhas no topo dobra, bloqueando a luz solar. A luminosidade que chega ao solo despenca para níveis abaixo do mínimo que a planta precisa para realizar a fotossíntese e se manter viva.

Liderada pelo pesquisador Davi Rodrigo Rossatto, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (FCAV-Unesp), a descoberta foi publicada na revista Annals of Botany em meados de maio.

Caixas de reserva de energia

O estudo mostra que as plantas rasteiras do Cerrado não morrem imediatamente porque possuem grandes raízes subterrâneas que funcionam como caixas de reserva de energia (carbono). Em condições normais, após uma seca ou queimada, a planta usa essa reserva para brotar e depois a recarrega com a luz do sol.

Na sombra, esse sistema entra em colapso. A planta até tenta se adaptar produzindo folhas para o escuro, mas essas folhas gastam mais energia para se manter do que conseguem produzir. Sem luz suficiente, a planta passa a gastar a energia acumulada na raiz sem conseguir repô-la. Basicamente, ela passa a viver da “fotossíntese do passado” até que o estoque zere e ela morra por exaustão.

Velocidade do sumiço

O tempo que cada espécie leva para desaparecer na mata fechada depende do tamanho de sua raiz. As gramíneas, que têm raízes pequenas e são pouco eficientes na sombra, são as primeiras a sumir. Já algumas plantas com grandes batatas subterrâneas conseguem resistir por décadas no escuro, mantendo apenas uma folha fina na tentativa de capturar o mínimo de luz possível.

Os cientistas afirmam que essa descoberta muda a forma como a ecologia entende a perda de biodiversidade no Cerrado. O próximo passo da pesquisa será realizar testes práticos em campo e em estufas para comprovar a teoria e ajudar a criar estratégias de conservação para os ecossistemas abertos.

Fonte: Agência Fapesp