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Uso intensivo de químicos altera equilíbrio de abelhas em lavouras

Uso intensivo de químicos altera equilíbrio de abelhas em lavourasO manejo do solo também aparece como um ponto de atenção. Foto: Davi de Lacerda Ramos/Embrapa

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Resumo:

  • Estudo da Embrapa em sete lavouras de soja do sudoeste de Goiás encontrou comunidades de abelhas menos equilibradas nas áreas com uso mais intenso de inseticidas e fungicidas de maior perigo ambiental.
  • Nessas lavouras, poucas espécies tolerantes ao manejo concentraram quase todos os insetos coletados, enquanto as demais apareceram em número reduzido.
  • O resultado indica que contar abelhas não basta para avaliar a saúde da lavoura: a quantidade de insetos pode ser alta mesmo onde a comunidade está empobrecida do ponto de vista funcional.
  • Os padrões observados durante a floração se repetiram quando considerados os insumos de toda a safra, o que levanta a hipótese de efeito das aplicações feitas antes do florescimento.
  • Os autores classificam os dados como exploratórios: foram seis propriedades na análise de insumos e uma única safra, entre novembro de 2023 e fevereiro de 2024.

 

Por André Garcia

Uma lavoura pode ter muitas abelhas e, ainda assim, apresentar uma comunidade pouco equilibrada. Estudo liderado pela Embrapa, no sudoeste de Goiás, mostrou que áreas com maior uso de inseticidas e fungicidas de maior perigo ambiental concentraram indivíduos de poucas espécies mais tolerantes às condições de manejo.

Na prática, onde o manejo foi mais intenso, poucas espécies resistentes responderam por quase todos os insetos coletados. É como uma rua com dez padarias em que nove são da mesma rede: a variedade existe na lista, não na prática.

A pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Carmen Pires explica como a contagem das abelhas, por si só, pode enganar.

“Uma área altamente pulverizada com químicos pode apresentar um número elevado de insetos na contagem rápida, mas quase todos pertencem a uma única espécie resistente. Funcionalmente, a lavoura torna-se um ‘deserto de biodiversidade’, vulnerável e dependente de intervenções artificiais constantes”, afirma ela.

Os pesquisadores avaliaram diferentes componentes das comunidades de abelhas, entre eles a chamada equitabilidade, indicador que mostra o quanto os indivíduos estão distribuídos de maneira uniforme entre as espécies presentes. Quanto menor esse índice, maior a concentração em poucos grupos.

A análise mostrou associação entre o maior uso de inseticidas e fungicidas classificados como de maior perigo ambiental e a redução dessa equitabilidade. Segundo os autores, o manejo mais intensivo pode funcionar como um filtro, favorecendo espécies mais tolerantes ao estresse.

Efeito aparece além da floração

Um resultado chamou a atenção dos pesquisadores. Os padrões encontrados durante a floração, período de maior atividade das abelhas na soja, foram semelhantes aos observados quando considerados os insumos utilizados durante toda a safra.

Para os autores, isso levanta a hipótese de que aplicações realizadas antes da floração também possam influenciar posteriormente as comunidades de abelhas.

O estudo, no entanto, não mediu resíduos no solo, no pólen ou no néctar nem a exposição efetiva dos insetos aos produtos, por isso essa relação ainda precisa ser investigada.

Manejo do solo

O estudo mostrou que mais da metade das abelhas encontradas estavam dentro da própria plantação de soja. Elas usam a sua área tanto para se alimentar quanto para construir suas casas. A questão é que muitas dessas abelhas não moram em árvores, mas sim dentro do chão.

Quando o solo passa por um revolvimento muito pesado, como na aração e gradagem constante, ou quando fica muito compactado pelo trator, esses ninhos que estão embaixo da terra acabam sendo destruídos.

Para o produtor, vale a pena cuidar disso porque a abelha é uma parceira que ajuda no rendimento da lavoura. Práticas como o plantio direto e o cuidado para evitar a compactação do solo ajudam a proteger esses insetos, mantendo a terra saudável e garantindo a polinização da plantação.

“Sem tratores desfazendo seus abrigos e sem venenos penetrando a terra, essas abelhas podem persistir de uma safra para a outra, prontas para polinizar a próxima floração”, afirma Carmen Pires.

Insumos de menor impacto

O estudo indica que reduzir a dependência de insumos de maior perigo ambiental e ampliar o uso de práticas de menor impacto, entre elas os bioinsumos, pode contribuir para comunidades mais equilibradas. Entre esses produtos estão microrganismos e outros insumos de origem biológica empregados na fertilização do solo e no controle de pragas. Os autores ressalvam que a associação é preliminar e demanda testes diretos.

A pesquisa foi financiada pela Cargill e integra o projeto Regenera Cerrado, gerido pelo Instituto BioSistêmico, que reúne instituições de pesquisa e produtores rurais. Os autores declaram ausência de conflito de interesses.

O mesmo trabalho identificou 27 registros inéditos de abelhas associadas à cultura da soja no Brasil, em lavouras próximas a fragmentos de mata preservada. Segundo a Embrapa, a presença desses insetos pode aumentar o peso dos grãos em média 7%.

Saiba mais

O que é equitabilidade — Indicador usado em ecologia para medir o quanto os indivíduos de uma comunidade estão distribuídos de maneira uniforme entre as espécies presentes. Duas áreas podem ter o mesmo número de espécies e o mesmo número de indivíduos, mas apresentar equitabilidade diferente: se em uma delas quase todos os insetos pertencem a uma ou duas espécies, o índice é baixo. Por isso os pesquisadores avaliam esse componente separadamente da contagem de abelhas e do número de espécies.

 

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