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Soja atrai 27 espécies de abelhas ainda não registradas na cultura

Soja atrai 27 espécies de abelhas ainda não registradas na culturaFragmentos de Cerrado funcionam como Polinizadores. Abelhas/soja. Foto: Embrapa

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Resumo:

  • Estudo da Embrapa em lavouras do sudoeste de Goiás identificou 27 registros inéditos de abelhas associadas à cultura da soja no Brasil. As espécies já eram conhecidas pela ciência, mas nunca haviam sido citadas visitando as flores da oleaginosa no País.
  • A polinização por abelhas nativas pode aumentar o peso dos grãos em média 7%. Como a soja se autopoliniza, o ganho vem da polinização suplementar, que resulta em maior fertilização de óvulos e grãos mais pesados.
  • Quanto mais distante da mata nativa, menor a abundância de abelhas encontradas nas flores de soja. Os fragmentos de Cerrado fornecem abrigo, locais de nidificação e alimento nos períodos em que a cultura não está florescendo.
  • O trabalho documentou 40 espécies de abelhas nas áreas cultivadas do sudoeste goiano. Até 2018, revisões científicas acumuladas registravam apenas 12 espécies nativas associadas, de alguma forma, à soja no território brasileiro.

 

Por André Garcia

Pesquisadores da Embrapa identificaram 27 registros inéditos de abelhas associadas à cultura da soja no Brasil. Os insetos foram encontrados em lavouras próximas a regiões de mata preservada no sudoeste de Goiás e reforçam a relação entre a conservação do Cerrado e a produtividade, já que podem aumentar o peso dos grãos em média 7%.

De acordo com o estudo, publicado no Journal of Applied Entomology, quanto mais distante da mata nativa, menor a abundância de abelhas encontradas nas flores de soja. A conclusão resulta de coletas feitas em lavouras comerciais de soja e nos fragmentos de Cerrado vizinhos, nos municípios de Rio Verde e Montividiu.

Na prática, esses fragmentos de Cerrado funcionam como “fábricas de polinizadores” para as plantações. Na região, constatou-se que a mata preservada fornece abrigo para os 18% das espécies que fazem ninhos em ocos de troncos de árvores caídas, e alimento alternativo nos períodos em que a oleaginosa não está florescendo.

Ou seja, sem a floresta vizinha, as abelhas não conseguem colonizar as plantações comerciais.

“Proteger as abelhas nativas e o Cerrado que as abriga é, acima de tudo, preservar a economia e a segurança alimentar do Brasil”, avalia a pesquisadora Carmen Pires, que liderou o estudo.

Novos recordes

No total, o trabalho documentou 40 espécies de abelhas nas áreas cultivadas de soja no sudoeste goiano. Antes dessa publicação, revisões científicas acumuladas até 2018 registravam apenas 12 espécies de abelhas nativas associadas, de alguma forma, à soja no território brasileiro.

Conduzido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o estudo também contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Instituto Federal Goiano – Campus Rio Verde (IF Goiano). A pesquisa integra o projeto Regenera Cerrado, da Cargill.

“A pesquisa da Embrapa consolida, com dados de campo, que o futuro da agricultura nacional depende do equilíbrio ecológico. Os insetos polinizadores são os amigos invisíveis das lavouras, mas o manejo inadequado pode colocá-los em risco”, reforça Pires.

Alerta no Cerrado

Essa dinâmica entre abelhas e soja, porém, depende de um Cerrado que vem encolhendo. O bioma perdeu 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, segundo levantamento do MapBiomas divulgado nesta semana. A agricultura foi a atividade que mais avançou pelo território, ocupando com 24,7 milhões de hectares.

A polinização é apenas um dos serviços ecossistêmicos oferecidos pelo Cerrado à agropecuária. A conservação da vegetação nativa também é responsável pela regulação climática e dos ciclos de chuva, por exemplo.

Pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Dhemerson Conciani defende o desenvolvimento de um modelo que concilie conservação, produção e crescimento econômico no bioma, especialmente na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), para onde as perdas se deslocaram nos últimos cinco anos.

“Os planaltos [do Matopiba], com alta aptidão agrícola, têm sido amplamente desmatados para ampliar a produção de commodities, causando alterações no clima regional e contribuindo para a intensificação de eventos climáticos extremos – ameaçando a própria agropecuária”, alerta Conciani.

O perfil das abelhas

Das 764 abelhas coletadas no estudo, 89% eram nativas do Brasil e apenas 11% pertenciam à Apis mellifera, espécie exótica conhecida pela produção de mel.

A maior parcela das espécies coletadas (44,7%) tem hábitos solitários. Diferentemente das abelhas que vivem em colônias e podem ser manejadas em caixas, elas dependem das condições ambientais da própria fazenda para encontrar alimento e locais de reprodução.

 

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