Vencedora do World Food Prize, considerado o “Nobel da Agricultura”, a pesquisadora da Embrapa, Maria Ângela Hungria, aponta que os bioinsumos podem substituir até metade dos fertilizantes químicos usados no Brasil, com economia de cerca de R$ 140 bilhões por safra.
Com uma pesquisa sobre insumos biológicos que revolucionaram a agricultura, a engenheira agrônoma da Embrapa Soja entrou para a história ao ser anunciada no ano passado como vencedora da premiação, concedida a pessoas que contribuíram significativamente para melhorar a qualidade, a quantidade ou a disponibilidade de alimentos no mundo.
Na última quarta-feira, 15/4, ela foi incluída na prestigiada lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista “Time”.
Em entrevista ao Giro do Boi, ela destacou a contradição no cenário atual: apesar do potencial, os bioinsumos ainda representam menos de 10% do uso total no campo.
“Hoje nós temos soluções que poderiam substituir de 40% a 50% dos fertilizantes químicos, mas ainda estamos em cerca de 10%. A gente paga a ureia em dólar e perde, em média, metade desse nitrogênio no campo”, explicou a pesquisadora,
Em um cenário de instabilidade global, a forte dependência externa – cerca de 85% dos fertilizantes são importados – tem impulsionado a adoção de bioinsumos no Brasil. O movimento ganhou força especialmente após a pandemia e a guerra entre Rússia e Ucrânia.
“Quando o fertilizante não chegou, o produtor testou o biológico. E viu que funcionava. Desde então, o uso vem crescendo de forma exponencial.”
Mariângela Hungria ganhou o prêmio com pesquisa sobre insumos biológicos. Foto: Luciano Pascoal/Embrapa Soja
Solo vivo como base da produtividade
Mais do que uma alternativa aos químicos, os bioinsumos reposicionam o próprio conceito de produtividade. A base deixa de ser apenas a aplicação de insumos e passa a incluir a recuperação da vida no solo. “Um solo sem vida não consegue nem reter o próprio fertilizante químico”, explica a pesquisadora.
Isso porque, o uso contínuo de microrganismos contribui para reativar processos biológicos essenciais, melhorar a ciclagem de nutrientes e aumentar a eficiência do sistema produtivo como um todo.
Pecuária entra no radar dos biológicos
Embora amplamente difundidos na soja, os bioinsumos começam a ganhar espaço também na pecuária, especialmente na recuperação de pastagens degradadas. Segundo a cientista, bactérias promotoras de crescimento pode elevar em mais de 20% a produção de biomassa das pastagens, além de melhorar a qualidade nutricional da forragem.
Com maior desenvolvimento radicular, as plantas passam a absorver melhor água e nutrientes, reduzindo perdas e aumentando a eficiência do uso de fertilizantes.
“Com o uso dessas bactérias, conseguimos produzir mais e, em alguns casos, eliminar uma segunda aplicação de nitrogênio”, disse a pesquisadora.
Produção pode crescer sem abrir novas áreas
A adoção dessas tecnologias também se conecta diretamente ao debate sobre expansão agrícola. Hoje, o Brasil possui cerca de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas, que poderiam ser recuperadas com ganho significativo de produtividade.
“A gente pode duplicar ou até triplicar a produção sem derrubar uma árvore, só recuperando essas áreas. Eu já não falo mais em agricultura sustentável. Hoje a gente fala em agricultura regenerativa, que é recuperar o que foi perdido e produzir melhor ao mesmo tempo”, acrescentou.
Indústria nacional e menor dependência
Outro ponto destacado por ela é o caráter estratégico dos bioinsumos para a economia brasileira. Diferentemente dos fertilizantes químicos, cuja produção depende de cadeias globais, os biológicos são baseados na biodiversidade nacional.
Apesar do avanço recente, Hungria avalia que o principal desafio agora é ampliar a adoção em escala, superando barreiras de mercado e ampliando o acesso à tecnologia.
“É uma solução que nasce aqui, com base na nossa biodiversidade, e fortalece a indústria nacional. Tem muito espaço para crescer. A gente está só começando”, concluiu.
LEIA MAIS:
Brasileira na lista da Time ajudou agro a economizar R$ 125 bi por ano
Pesquisa brasileira reduz fertilizantes na soja e ganha prêmio
Guerra no Oriente Médio reforça urgência por bioinsumos no Brasil
Veja como bioinsumos podem livrar agro de fertilizantes importados
Registro de bioinsumos bate recorde em 2025 no Brasil
Brasil vira prioridade de gigante global dos bioinsumos
Agricultura 5.0 e bioinsumos impulsionam a sustentabilidade
Brasil marca posição em mercado global de bioinsumos
Veja como o conflito entre Irã e EUA impacta o agro brasileiro
Corrida por fertilizantes pode encarecer insumos, alerta Aprosoja


