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China oferece até 10% a mais por carne brasileira sem desmate

China oferece até 10% a mais por carne brasileira sem desmateCarta de interesse foi assinada por nove importadores chineses. Foto: Famasul

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Resumo

  • Importadores chineses assinaram, em Tianjin (3/6), a primeira carta para testar o selo Beef on Track (BoT), que atesta carne bovina brasileira livre de desmatamento.
  • A Tianjin Meat Association mira comprar até 50 mil toneladas de carne certificada em 2026 e acena com prêmio de até 10% pelos lotes nos níveis mais avançados do selo.
  • A China é o maior destino da carne brasileira e absorve mais de 47% do volume exportado pelo setor.
  • O Brasil já tem 2,1 milhões de toneladas elegíveis à certificação (TAC Carne Legal), concentradas em Mato Grosso e no Pará.
  • Para o comprador chinês, qualidade inclui sustentabilidade e bem-estar animal, o que favorece o rebanho brasileiro criado a pasto.

Por André Garcia

Pela primeira vez, importadores chineses sinalizaram disposição de pagar mais caro pela carne bovina brasileira que comprovar origem livre de desmatamento. São até 10% a mais, valor que veio à mesa nesta terça-feira (3) junto com a carta que abre o primeiro teste de uma certificação desse tipo.

Por trás da proposta está a Tianjin Meat Association (TMA), que mira comprar até 50 mil toneladas de carne certificada ao longo de 2026. O prêmio cobriria os lotes que atingirem os níveis mais avançados do selo.

A assinatura aconteceu em Tianjin, cidade portuária a menos de três horas de Pequim e rota de boa parte da carne que o Brasil vende à China. Com a TMA, outros oito importadores chineses entraram na carta de interesse.

Em teste está o Beef on Track (BoT), selo criado pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e lançado em outubro do ano passado. Trata-se do primeiro sistema a atestar o monitoramento e a conformidade socioambiental da carne bovina brasileira.

Escolher a China para o piloto tem lógica comercial. O país é o maior comprador da carne brasileira e absorve mais de 47% do volume exportado pelo setor, segundo o Beef Report 2026, da Abiec.

O peso do prêmio

Mais do que reconhecimento, o prêmio quer mexer com o produtor pelo bolso. A TMA já havia anunciado a intenção de compra no lançamento do selo e, segundo o Imaflora, agora se prepara para cumprir o prometido.

“É uma oportunidade interessante para a carne brasileira, que agrega valor ao carregar também informação socioambiental”, afirma Marina Guyot, diretora de Clima e Desmatamento Zero do Imaflora. Para ela, o diferencial de preço pode estimular mais produtores a adotar boas práticas e a regularizar passivos ambientais.

Não seria a primeira vez que o dinheiro move o setor. No início da década de 2020, o chamado “boi China” pagou mais pelo gado rastreável e abatido antes dos 30 meses. Atraídos pelo preço, os produtores fizeram mudanças que cortaram as emissões em cerca de 5,8 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente em 2022.

De onde vem a carne

Matéria-prima para atender ao pedido chinês não falta. Hoje o Brasil dispõe de 2,1 milhões de toneladas que cumprem o Termo de Ajustamento de Conduta da Carne na Amazônia Legal, o TAC Carne Legal, com maior concentração em Mato Grosso e no Pará. Todo esse volume é elegível à certificação.

O interess também não para na TMA. Durante a visita, o Imaflora apresentou o sistema a importadores da província de Henan, um dos principais polos de distribuição de carne do país e igualmente interessado no selo.

Qualidade que inclui sustentabilidade

O Imaflora ressalta o que a China chama de qualidade. Para o comprador chinês, o conceito vai além de maciez, marmoreio e sabor: alcança sustentabilidade, conservação de recursos naturais e bem-estar animal.

“A qualidade a que os chineses se referem diz respeito à conservação dos recursos naturais, ao equilíbrio climático e ao bem-estar e qualidade com a qual os animais são criados”, explica Louise Nakagawa, coordenadora da certificação BoT no Imaflora. Não por acaso, o país quer zerar suas emissões líquidas até 2060.

Nesse critério, o Brasil sai na frente. Boa parte do rebanho é criada a pasto, o que, na leitura chinesa, melhora a vida dos animais. Somado ao monitoramento do BoT, isso transforma a carne nacional de commodity abundante em produto com apelo ambiental para um consumidor cada vez mais exigente.

Saiba mais:

O papel do Imaflora

Criador do selo BoT, o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola atua desde 1995 pelo uso sustentável e inclusivo dos recursos naturais, conciliando conservação ambiental, desenvolvimento econômico e enfrentamento da crise climática. Reúne conhecimento em produção florestal e agropecuária, sociobiodiversidade, uso da terra e mudanças climáticas, expertise que lhe rendeu credibilidade técnica para dialogar com diferentes setores e fomentar cadeias responsáveis, de baixas emissões e comprometidas com a sociobiodiversidade. A meta é gerar impacto positivo na vida de quem move a economia conservando o meio ambiente.

 

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