O cenário geopolítico global, marcado pelos conflitos no Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia, impacta diretamente a produção agropecuária no Brasil. Na porteira, o efeito é claro: fertilizantes mais caros e maior pressão sobre os custos de produção.
Diante desse contexto, o engenheiro agrônomo Wagner Pires, embaixador de conteúdo do Giro do Boi, alerta que não é hora de abandonar a adubação, mas de usar estratégia. Segundo ele, o aumento no preço da ureia está diretamente ligado à instabilidade no mercado de petróleo, o que exige ajustes no manejo para preservar a eficiência produtiva sem comprometer a margem.
No caso do nitrogênio, o principal insumo afetado, a recomendação é reduzir a dependência imediata e ganhar eficiência dentro da fazenda.
Uma das estratégias é ajustar a lotação animal. Em vez de forçar o crescimento do capim com adubação nitrogenada para sustentar altas cargas, o caminho é trabalhar com uma lotação mais leve. Com isso, o pasto se recupera naturalmente e o sistema reduz a necessidade de insumos caros no curto prazo.
Outra alternativa é investir em adubação orgânica. O uso de esterco de curral, cama de frango ou dejetos de suínos pode suprir parte da necessidade de nitrogênio, além de reduzir o custo por arroba produzida, aproveitando recursos disponíveis na própria propriedade ou na região.
Há ainda um componente de timing. Se o pasto apresenta bom vigor, especialmente com as chuvas, e a carga animal está equilibrada, a orientação é segurar a compra de ureia e aguardar um momento de menor volatilidade no mercado.
Base do solo segue como prioridade
Enquanto o nitrogênio pressiona os custos, outros insumos seguem com cenário mais estável e não devem sair do planejamento.
O calcário, por exemplo, continua sendo a base da correção de solo. Com melhor relação custo-benefício e menor dependência do cenário internacional, deve ser tratado como prioridade. É ele que garante o ambiente químico adequado para resposta do pasto.
O fósforo também segue essencial, principalmente para o enraizamento do capim. Como grande parte das fontes utilizadas no Brasil vem de regiões fora das zonas de conflito, a recomendação é manter a aplicação sempre que a análise de solo indicar necessidade.
Na prática, o manejo passa a exigir priorização. Calcário permanece como investimento prioritário, fósforo deve ser mantido conforme diagnóstico técnico, enquanto o nitrogênio entra em condição crítica e exige substituição parcial ou redução de uso. Já o potássio demanda atenção, com monitoramento de estoques e busca por alternativas.
A lógica, segundo Wagner Pires, é simples: a adubação nitrogenada funciona como um acelerador da produção. Com o insumo caro, o produtor precisa tirar o pé, ajustar o sistema e reforçar a base.
A estratégia garante que, quando o mercado de fertilizantes se estabilizar, o solo já esteja equilibrado e pronto para responder rapidamente, sem perda de eficiência no sistema produtivo.
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