Resumo
- O El Niño reduziu o nível dos rios Madeira e Tapajós, forçando ajustes no escoamento de soja e milho pelos portos do Arco Norte.
- O Rio Tapajós segue operando com apenas 60% de sua capacidade de carga, enquanto o Rio Madeira chegou a operar em 70% em outubro antes de se recuperar.
- Para não atrasar as entregas nem encalhar, empresas como a Caramuru reduziram o peso colocado em cada embarcação e passaram a rodar com comboios maiores.
- A menor busca por transporte até os portos durante a entressafra fez o frete no trecho Sinop (MT)–Miritituba (PA) cair de R$ 307,63/t em junho para R$ 255,87/t em outubro.
- Com a NOAA apontando 83% de chance de o El Niño ser um dos mais intensos da história, o mercado monitora o impacto na rota responsável por 51,2% do milho e 38,6% da soja exportados pelo Brasil em 2026.
A seca e o calor associados ao El Niño baixaram o nível dos rios Madeira e Tapajós, principais hidrovias para os portos do Arco Norte, e já mudam a logística de escoamento de soja e milho. Com menos grãos seguindo para as barcaças, caiu também a procura por caminhões, e o frete rodoviário perdeu valor.
A região já sentiu os efeitos do fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal do Pacífico, na seca severa de 2023 e 2024. Para Edeon Vaz, diretor-executivo da Agência de Desenvolvimento Sustentável de Hidrovias e Corredores de Exportação (Adecon), o cenário atual fica no meio do caminho: “Este ano está melhor que 2023, muito melhor que 2024, mas pior que 2025”. As informações são do Valor Econômico.
No Madeira, a operação caiu a 70% da capacidade em meados de outubro e já voltou a 100%. No Tapajós, a situação é mais delicada. “Agora parou de cair o nível do rio, mas está trabalhando com 60% da carga”, diz Vaz.
Mais barcaças, menos carga
A Caramuru Alimentos, produtora de farelo de soja e derivados, precisou mudar a forma de despachar sua proteína de soja concentrada. O produto sai do terminal de Itaituba (PA) em barcaças que descem o Tapajós e depois o Amazonas até o porto de Santana (AP), de onde segue para Brake, na Alemanha.
Com o calado menor, a empresa passou a carregar menos em cada embarcação e a usar mais barcaças por comboio.
“Não paramos de operar por conta do calado. Os volumes contratados estão sendo entregues com comboios maiores e cargas menores nas barcaças”, disse o CEO, Marcus Thieme, ao Valor. Segundo ele, as chuvas recentes ajudam a manter o nível dos rios estável.
Frete em queda
No trecho entre Sinop (MT) e Miritituba (PA), que leva ao porto de Itaituba, o frete de grãos fechou outubro em R$ 255,87 por tonelada. Em setembro, estava em R$ 260,16. No auge do escoamento da safra pelo Norte, em junho, chegou a R$ 307,63. Os dados são do Sistema de Informações de Fretes (Sifreca), do grupo Esalq-log.
O pesquisador Fernando Bastiani, do Esalq-log, atribui a queda a dois fatores: o menor volume exportado na entressafra e o El Niño, que reduz o calado do Tapajós e obriga as barcaças a navegar com menos carga.
Ele lembra que, em outubro de 2025, o frete no mesmo trecho era ainda menor, de R$ 237,51 por tonelada, mas diz que a comparação anual não é direta.
“Este ano está um pouco maior devido à pressão de custo, principalmente do diesel, que está mais caro em relação ao ano passado”, afirma.
Novembro deve ser decisivo
Para o analista da Argus João Petrini, novembro será “um ponto chave” para dimensionar o impacto do El Niño sobre o Arco Norte. O último boletim da agência climática americana NOAA estima 83% de chance de o fenômeno superar, entre outubro e dezembro, a intensidade de todos os eventos registrados desde 1950.
O peso da rota nas exportações explica a atenção ao tema. De janeiro a setembro de 2026, o Arco Norte escoou 10,06 milhões de toneladas de milho, ou 51,22% do total exportado pelo país, e cerca de 38,7 milhões de toneladas de soja, ou 38,66%, segundo dados do governo federal. Em 2025, os portos da região movimentaram 163,3 milhões de toneladas de cargas.
A Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport) foi procurada sobre as condições de navegação na bacia, mas não respondeu.

