Por André Garcia
Uma mudança simples no manejo da pastagem, como o consórcio com leguminosas e gramíneas, pode elevar em até 72% o ganho diário de peso dos bovinos e ao mesmo tempo reduzir em até 60% a emissão de metano (CH₄) por quilo de ganho de peso, deixando a produção muito mais eficiente e competitiva.
O resultado, segundo estudo conduzido pela Embrapa Cerrados em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), vem do melhor aproveitamento da forragem, que além de melhorar o desempenho dos animais, contribui para a qualidade do solo, aumentando a disponibilidade de nutrientes e dando mais estabilidade ao pasto.
“As forrageiras têm sido utilizadas como espécies de duplo propósito ou plantas de serviço, atuando tanto como pastagens nas áreas de integração com a pecuária quanto como plantas de cobertura nas áreas agrícolas, desempenhando papéis específicos na melhoria do sistema de produção”, explica o pesquisador Robélio Marchão.
Manejo simples, ganho expressivo
Ao longo do estudo foram analisados três sistemas de produção: uma pastagem contínua solteira de capim BRS Piatã (S1); uma pastagem contínua de BRS Piatã consorciada com a leguminosa feijão-guandu IAPAR 43 (S2); e uma pastagem em rotação com lavoura (ILP) de capim BRS Zuri (S3).
O gado apresentou melhor desempenho à medida que o sistema se intensificava. No primeiro caso, o ganho médio diário foi de 0,44 kg por animal. No segundo, esse valor subiu para 0,69 kg por dia. Já no sistema integrado com rotação lavoura-pecuária, o ganho chegou a 0,76 kg por animal ao dia.
Os dados foram coletados no experimento com sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) mais antigo do Brasil, implantado em 1991. As avaliações ocorreram em maio, agosto e dezembro de 2024 e fazem parte da tese de doutorado da pesquisadora Thais Rodrigues de Sousa.
Emissões
A estratégia também reduziu a emissão de metano entérico (CH₄), gerado no processo digestivo dos bovinos. Enquanto a pastagem solteira emitiu 450 gramas de CH₄ por quilo de ganho de peso vivo por hectare, no consórcio com leguminosa, o índice foi 269 gramas e no sistema integrado com capim Zuri em rotação, 224 g.
O metano é um dos gases de efeito estufa (GEE) e tem potencial de aquecimento global 27 vezes maior que o do CO₂, mas não é o único associado à pecuária. Resultados obtidos na mesma área experimental demonstraram que os sistemas integrados também reduziram as emissões de óxido nitroso (N₂O) em até 59%.
Descarbonização
Outro ponto positivo foi a capacidade de armazenamento de carbono no solo, na camada de 0 – 30 cm. Enquanto na pastagem solteira o estoque foi de 62,20 t C ha⁻¹ (toneladas por hectare), o consórcio entre capim BRS Piatã e feijão guandu-anão (S2) alcançou 83,17 t C ha⁻¹.
No Brasil, onde cerca de 90% da produção bovina ocorre em sistemas a pasto, os dados reforçam que estratégias de intensificação bem manejadas são fundamentais para aumentar a eficiência produtiva, reduzir a pegada climática da pecuária e fortalecer a resiliência do setor diante das mudanças climáticas.
“A redução das emissões sem comprometer o desempenho animal é um dos principais desafios da agropecuária, e sistemas integrados, consorciados ou intensivos têm se mostrado alternativas viáveis na descarbonização desse setor”, reforça a pesquisadora Arminda de Carvalho.
Atualização das recomendações
Recomendações sobre o uso de leguminosas em consórcio com pastagens estão sendo atualizadas. Uma circular técnica com orientações para a introdução do guandu-anão em consórcio com capim-braquiária, em sistema de plantio direto, foi publicada em setembro de 2025 pela Embrapa. O material pode ser consultado aqui.
No caso do consórcio com guandu-anão, a equipe ressalta que, além de elevar o valor nutritivo da forragem, há uma melhoria na qualidade do solo que impacta diretamente a gramínea, aumentando a disponibilidade de nitrogênio em formas orgânicas.
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