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Embrapa usa edição gênica para otimizar bioinsumos

Embrapa usa edição gênica para otimizar bioinsumosPesquisas se concentram na fixação biológica de nitrogênio. Foto: Embrapa

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Resumo:

  • A Embrapa edita geneticamente bactérias fixadoras de nitrogênio associadas a braquiária, trigo e cana-de-açúcar, com três estirpes já em caracterização em laboratório.
  • A fixação biológica de nitrogênio gera economia anual estimada em US$ 15,2 bilhões apenas na soja, segundo a Embrapa — valor referente ao processo como ele já funciona, não às linhagens editadas.
  • O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, o que dá peso econômico à substituição de adubo nitrogenado.
  • Mais da metade das submissões de edição gênica à CTNBio envolve microrganismos, segundo o pesquisador Alexandre Nepomuceno.
  • Não há resultado de campo divulgado nem prazo anunciado para a chegada das bactérias editadas ao produtor.

Por André Garcia

Pesquisadores brasileiros estão usando edição gênica para tentar tornar mais eficientes as bactérias que ajudam as lavouras a obter nitrogênio, nutriente essencial para o desenvolvimento das plantas. A tecnologia pode ampliar o potencial dos bioinsumos e reduzir a dependência de adubo nitrogenado em um país que importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza no campo.

As pesquisas são conduzidas pela Embrapa e instituições parceiras e se concentram, principalmente, na fixação biológica de nitrogênio (FBN). Só na cultura da soja, esse processo gera uma economia anual estimada em US$ 15,2 bilhões, segundo a estatal.

Três linhagens editadas já estão em caracterização em laboratório, etapa anterior aos testes de campo. Os resultados foram apresentados em 2 de setembro, durante o evento virtual “P&D em debate”, organizado pelo Comitê Gestor do Portfólio Biorrevolução, da Embrapa.

Atualmente, mais de 50% das submissões de edição gênica encaminhadas à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) estão relacionadas a microrganismos, de acordo com o pesquisador Alexandre Nepomuceno, da Embrapa Soja e integrante da comissão.

Mais nitrogênio

Na Embrapa Agrobiologia, os pesquisadores trabalham com bactérias capazes de capturar o nitrogênio presente na atmosfera. A edição gênica busca alterar o funcionamento desses microrganismos para que uma parcela maior do nutriente fique disponível à planta.

A estratégia envolve genes responsáveis pela regulação da fixação biológica de nitrogênio e mecanismos relacionados ao acúmulo e à liberação de amônia. Os microrganismos em estudo estão associados a braquiária, trigo, cana-de-açúcar e outras plantas.

“Nossa expectativa é ampliar a competitividade deles na agropecuária, em diferentes culturas e em outras frentes, como o controle biológico de pragas e doenças e a tolerância a estresses climáticos”, explicou durante a apresentação o pesquisador Jean Araújo, da Embrapa Agrobiologia.

Além dessa unidade, equipes da Embrapa Semiárido, Milho e Sorgo e Arroz e Feijão trabalham para melhorar o desempenho de microrganismos em condições de campo.

Soja tolerante à seca

A edição gênica também vem sendo testada pela Embrapa em plantas e animais. Na soja, uma das pesquisas busca desenvolver variedades mais tolerantes à seca. Uma linhagem considerada convencional pela CTNBio em março de 2023 começou a ser testada em diferentes locais na safra 2025/26.

Outra frente pretende melhorar a qualidade do óleo da soja. Os trabalhos já resultaram em linhagens com mais de 70% de ácido oleico e menos de 3% de ácido palmítico.

Na pecuária, a Embrapa Gado de Leite trabalha para tornar bovinos Black Angus mais tolerantes ao calor. A estratégia utiliza edição gênica para gerar animais de pelo curto, característica que favorece a dissipação do calor corporal.

Regulação pode facilitar chegada ao mercado

Desde 2018, a Resolução Normativa nº 16 da CTNBio estabelece que produtos desenvolvidos por técnicas de melhoramento de precisão, incluindo a edição gênica, sejam avaliados caso a caso, para determinar se devem ou não ser classificados como organismos geneticamente modificados (OGM).

Segundo a Embrapa, a possibilidade de produtos editados serem considerados convencionais pode reduzir os custos regulatórios e abrir espaço para que instituições e empresas menores desenvolvam novas tecnologias. Os produtos já enquadrados dessa forma pela comissão são plantas; a estatal não informou se microrganismos editados seguem o mesmo caminho.

A chegada dessas soluções ao mercado, porém, ainda enfrenta obstáculos. Entre eles estão questões de propriedade intelectual e licenciamento de ferramentas como a CRISPR-Cas9. A Embrapa também aponta desafios financeiros e regulatórios para transformar resultados de pesquisa em tecnologias disponíveis ao setor produtivo.

Saiba mais

O que é fixação biológica de nitrogênio – É o processo em que bactérias presentes no solo ou associadas às raízes captam o nitrogênio do ar e o convertem em formas que a planta consegue absorver, substituindo parte ou a totalidade do adubo nitrogenado que precisaria ser aplicado na lavoura. Na soja, a prática está consolidada há décadas por meio da inoculação de sementes com estirpes selecionadas, e é a principal responsável pela economia de fertilizante na cultura. Em gramíneas como braquiária, trigo e cana-de-açúcar, a associação entre planta e bactéria é menos eficiente, e é justamente aí que a pesquisa com edição gênica tenta avançar.

 

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