Resumo:
- A produtividade da pecuária de Mato Grosso passou de 60,66 kg de carcaça por hectare em 2010 para 115,42 kg em 2025, alta de 90,3%, quase o dobro do avanço nacional (49,8%).
- O estado ocupa a quinta posição em produtividade no país, atrás de São Paulo (326,93 kg/ha), Santa Catarina (167,24 kg), Paraná (160,10 kg) e Rondônia (122,35 kg).
- A proporção de animais abatidos com menos de 24 meses saltou de 13% para 45% em uma década, resultado que reduz o metano emitido por quilo de carne produzido.
- No Brasil, a produção de carne cresceu 146,6% em 30 anos, ritmo 3,6 vezes superior ao do rebanho, enquanto a área de pastagens diminuiu 18%, para cerca de 160 milhões de hectares.
- Em 2025, o país se tornou o maior produtor mundial de carne bovina e bateu recorde de exportação: 3,5 milhões de toneladas para 177 países e US$ 18 bilhões em receita.
Por André Garcia
Boas práticas como melhoramento genético, manejo de pastagens e nutrição animal quase dobraram a produtividade da pecuária mato-grossense nos últimos 15 anos, segundo dados do Beef Report, da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), publicado na quinta-feira, 16/7.
De acordo com o levantamento, entre 2010 e 2025 o peso de carcaça por hectare no estado passou de 60,66 kg para 115,42 kg, uma alta de 90,3%. O avanço também é quase o dobro do registrado no País, onde o índice passou de 51,6 kg para 77,3 kg por hectare no mesmo período (49,8%).
O indicador é um dos principais parâmetros de eficiência da pecuária: quanto maior, mais carne se produz na mesma área — com menos pressão por novas pastagens e mais rentabilidade. Os efeitos são constatados pelo presidente do grupo Nelore Mato Grosso, o pecuarista de Pontes e Lacerda, Alexandre El Hage.
“Nos últimos cinco anos demos uma ‘virada de página’, no melhoramento genético, na nutrição. Então foi um elo evolutivo, tanto na cria, quanto na recria, quanto na engorda. Isso é um marco muito forte na pecuária, mostrando que ainda podemos alcançar mais”, afirma ele, que tem mais de 40 anos de experiência na atividade.
Boi mais jovem
Para o produtor Marco Túlio Duarte Soares, que atua há mais de 30 anos em Rondonópolis, um dos efeitos mais visíveis dessa evolução está na idade de abate.
“Quando a gente olha 10 anos atrás, a gente tinha apenas 13% de animais abatidos com menos de 24 meses e hoje são 45%. O que está sendo colocado nas gôndolas para os consumidores são animais mais jovens, com melhor qualidade, o que é prova do ingresso da tecnologia na pecuária”, afirma.
O movimento também traz ganhos na sustentabilidade, ativo cada dia mais valorizado pelo mercado. Um animal terminado aos 24 meses passa cerca de um terço menos tempo no sistema do que um abatido aos 36 — e emite metano entérico durante toda a vida. Isso significa menos emissão por quilo de carne produzido.
Mais carne, menos pasto
Os números do Beef Report mostram que o avanço da pecuária vem da eficiência, não da expansão. Em todo o Brasil, nos últimos 30 anos, a produção de carne cresceu 146,6%, ritmo 3,6 vezes superior ao aumento do rebanho, de 40% no período.
O ganho de eficiência veio acompanhado de retração da área ocupada: a produtividade cresceu 183%, enquanto a área de pastagens diminuiu 18%, para cerca de 160 milhões de hectares. Um dos motores desse movimento é a intensificação. Em 2025, sistemas de confinamento e Terminação Intensiva a Pasto (TIP) responderam por 23% dos bovinos abatidos no país.
Competitividade
Na comparação entre os produtores brasileiros, os pecuaristas de Mato Grosso ocupam a quinta posição em produtividade, atrás apenas de São Paulo (326,93 kg de carcaça por hectare), Santa Catarina (167,24 kg), Paraná (160,10 kg) e Rondônia (122,35 kg).
Os ganhos do estado se somam a um ano histórico para a atividade no País. Em 2025, o Brasil se tornou, pela primeira vez, o maior produtor mundial de carne bovina e bateu recorde de exportação: 3,5 milhões de toneladas para 177 países, com faturamento de US$ 18 bilhões — alta de 40% em receita sobre 2024. A parcela da produção destinada ao mercado externo chegou a 36,7%, o maior patamar da série histórica.
Para o diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), Bruno de Jesus Andrade, os números reforçam o potencial da intensificação sustentável da produção.
“Os pecuaristas mato-grossenses vêm mostrando que é possível produzir mais utilizando melhor os recursos já disponíveis. Esses investimentos permitiram um ganho expressivo, fortalecendo a competitividade nos mercados nacional e internacional, reforçando o compromisso do setor com uma produção cada vez mais eficiente”, conclui.
SAIBA MAIS
O que é o manejo de pastagem – É o conjunto de práticas que mantém o capim produtivo ao longo do ano, em vez de deixar o animal comer até o pasto se esgotar. Envolve dividir a área em piquetes e alternar o gado entre eles, dando tempo para o capim rebrotar; ajustar a lotação ao que a pastagem suporta em cada estação; corrigir a fertilidade do solo com calagem e adubação; e escolher a forrageira adequada ao clima e ao tipo de solo. O efeito prático é sustentar mais animais no mesmo espaço, sem degradar a área. Pasto degradado produz menos capim, perde solo por erosão e libera o carbono que estava armazenado abaixo da superfície.
LEIA MAIS:
Super Cria: integração e resiliência elevam lucro da pecuária
Pecuária brasileira se opõe às novas regras sobre antimicrobianos
Estudo aponta caminhos para reduzir metano na pecuária
El Niño eleva custos e ameaça pastagens na pecuária
El Niño traz sério risco para a agropecuária no Centro-Oeste
Brasil pode reduzir mais de 90% das emissões da pecuária até 2050
Pó de rocha é alternativa nacional para uma pecuária sustentável

