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Sombra e água fresca: integração entre pasto e floresta protege rebanho e aumenta produtividade

Sombra e água fresca: integração entre pasto e floresta protege rebanho e aumenta produtividadeBoi que tem abrigo é mais saudável, calmo e come melhor. Claudio Lazzarotto/Embrapa

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Por André Garcia

Sol a pino, temperaturas superiores a 30° e umidade do ar entre 20% e 12%. No inverno mato-grossense, mais do que alento para o gado, sombra e água fresca representam também aumento da produtividade. É neste cenário escaldante que a integração entre floresta e pasto prova mais uma de suas vantagens: o boi que tem onde se abrigar é mais saudável, mais calmo e se alimenta melhor.

Todos esses fatores influenciam na quantidade de leite e na qualidade da carne produzida, como explica o médico veterinário e diretor técnico da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Francisco Manzi.

“Sem dúvida alguma os animais que têm mais conforto térmico apresentam melhor capacidade produtiva e maior possibilidade de expressão dos seus dos seus genes”, afirmou Manzi ao Gigante 163.

Portanto, a sombra natural fornecida pelas árvores é uma das soluções mais econômicas e eficientes para proteger os animais dos efeitos do clima. O sistema de integração pecuária-floresta combina intencionalmente árvores, pastagens e animais em uma mesma área ao mesmo tempo.

Estudos comprovam que o estresse térmico sofrido pelos animais que não passam por manejo adequado nesta época do ano interfere no desenvolvimento, causando redução do consumo de matéria seca, queda na eficiência reprodutiva, queda na produção de leite e no ganho de peso.

Saiba o que é estresse térmico

O médico veterinário e técnico da Empaer Felipe Veter explica que, além disso, a exposição pode interferir no sistema imune, deixando os animais propensos a algumas doenças.

“Em relação a qualidade da carne, o estresse térmico está mais relacionado aos momentos antes do abate, uma vez que aumenta a quantidade de substâncias como o glicogênio e causa alterações indesejadas na carne”, pondera.

Isso ocorre porque a carga de calor recebida pelos animais é maior do que a sua capacidade de perder calor. Esse estresse calórico, como é chamado pelos profissionais, é a soma do calor ambiente com o calor metabólico, que é aquele utilizado no dia-a-dia do animal para sua sobrevivência: comer, fazer as necessidades, se locomover etc.

Logo, se estas temperaturas aumentam muito e o animal não consegue reduzi-las por não ter sombra para se abrigar, ele passa a fazer menos esforço físico, fica mais parado, e tem que respirar mais vezes, ficando mais cansado.  Deste modo, de acordo com o mestre em zootecnia Orlando Júnior, como consequência há redução no consumo de alimentos e, claro, menor ganho de peso.

“As temperaturas em Mato Grosso são altas o ano inteiro, mas nessa época piora por conta da baixa umidade do ar. No caso dos animais europeus, que são menos resistentes, cai a produção de leite e aumenta a ocorrência de doenças infecciosas, principalmente em vacas leiteiras. Então, as consequências do calor podem ser catastróficas”, explica Orlando.

Bois europeus

Manzi pontua que um dos melhores exemplos dos impactos do estresse calórico é o histórico de implantação da pecuária no Brasil, com bois não adaptados trazidos da Europa.

“A pecuária não é típica do continente americano. No início, no Brasil, ela ficou praticamente paralisada nos Estados mais quentes. A explosão no Centro-Oeste só ocorreu quando animais mais bem adaptados conseguiram se estabelecer.”

É o caso dos zebuínos, que têm melhor resistência ao calor. Mas, mesmo com essa “vantagem”, a raça apresenta melhor desenvolvimento quando as pastagens são sombreadas.

“Quando o gado pode se refugiar do sol escaldante, ele ingere maior quantidade de alimentos e é mais tranquilo. Isso certamente influencia na qualidade da carne”, conclui Manzi.