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El Niño: atraso na soja pode gerar efeito dominó no milho

El Niño: atraso na soja pode gerar efeito dominó no milhoMilho é semeado logo após a colheita da soja, no mesmo talhão. Foto: CNA

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Resumo:

  • O Centro-Oeste enfrentará chuvas irregulares e ondas de calor durante a permanência do El Niño no País. O maior risco é o atraso no plantio da soja, gerando um “efeito dominó” que encurta a janela ideal para o milho safrinha.
  • O atraso e o clima adverso podem derrubar a produtividade por hectare e causar perdas nas lavouras. Uma menor oferta de grãos tende a encarecer os preços no mercado.
  • O calor e a falta de chuva regular prejudicam as pastagens. Isso obriga o produtor a usar mais ração, cujo custo sobe justamente porque é feita de soja e milho, encarecendo a produção e pesando no bolso do consumidor final.
  • O impacto varia por território. O Sul enfrenta risco de excesso de chuva (afetando trigo e arroz), enquanto o Norte e o Nordeste (incluindo o Matopiba) lidam com ameaça de estiagem severa.
  • Apesar do cenário preocupante, especialistas apontam que ainda é cedo para calcular o tamanho real do prejuízo financeiro ou do volume de grãos perdidos.
  • A orientação atual é monitorar de perto a chegada das chuvas e adotar estratégias de proteção, como o manejo adequado do rebanho no calor, prevenção contra incêndios e preparo do pasto.

Diferentemente da seca projetada para o Norte e o Nordeste ou do excesso de chuva esperado no Sul, a região Centro-Oeste deverá conviver com precipitações irregulares e ondas de calor causadas pelo El Niño nos próximos meses.  Nesse cenário, o principal risco é o atraso no plantio da soja, que pode encurtar a janela do milho safrinha.

O resultado é queda de produtividade, com menos grão por hectare e, nos anos mais severos, perda de parte da lavoura. Se o problema se espalhar pela região, a oferta menor tende a mexer também com os preços. É o que apontam especialistas das principais consultorias do país, ouvidos pela Folha de São Paulo.

“Se houver problemas de produção, haverá um aperto na oferta, o que deve levar à alta dos preços, principalmente dos grãos”, afirma o analista Francisco Queiroz, do Itaú BBA Agro.

Calendário é a maior preocupação

O plantio da soja costuma se concentrar entre setembro e dezembro, com variações por estado. A irregularidade da chuva, contudo, pode empurrar o cultivo da oleaginosa para mais tarde na região, o que tende a estreitar a janela do milho safrinha, semeado logo em seguida, no mesmo talhão.

De acordo com Gabriel Viana, consultor da Safras & Mercado, o problema está no encadeamento: cada semana de atraso na primeira cultura reduz o tempo disponível para a segunda.

“Não podemos quebrar a safra antes da hora, mas tudo está se encaminhando para problemas com o El Niño. Os mapas [climáticos] estão feios”, disse.

A leitura é compartilhada por Danyella Bonfim, assessora técnica da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). “Qualquer atraso nas chuvas pode comprometer a janela de plantio. Há muita preocupação com esse efeito dominó.”

Reflexos na pecuária e no bolso do consumidor

Na pecuária, o calor e a irregularidade das chuvas podem reduzir a qualidade das pastagens, o que tende a exigir mais ração na alimentação do rebanho. O problema é que o custo dessa ração depende justamente de soja e milho, os mesmos grãos sob risco nas lavouras.

 “O aumento de custos de produção acaba sendo repassado para o consumidor final”, analisa Francisco Queiroz, do Itaú BBA.

Cada região reage de um jeito

Fora do Centro-Oeste, os efeitos esperados variam. No Sul, o risco é de chuva e temperatura acima da média, com possibilidade de excesso hídrico sobre lavouras como trigo e arroz. No Norte e no Nordeste, a ameaça é oposta, de estiagem mais severa em áreas como o Matopiba. No Sudeste, culturas como o café também entram no radar.

“A produção agropecuária brasileira está espalhada em diversas porções do território, então não há um único impacto do El Niño. Cada região deve sentir [o fenômeno] de um jeito”, afirma o pesquisador Felippe Serigati, do centro de estudos FGV Agro.

Ainda sem projeção de perdas

A chance de um evento muito forte no final do ano subiu para 81%, conforme informação divulgada nesta quinta-feira (9) pela NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), dos Estados Unidos. Mas, apesar dos alertas, os especialistas evitam projetar números.

“A gente sabe que vai ter um El Niño, mas ainda não tem a dimensão das possíveis perdas caso os eventos sejam extremos”, afirma o pesquisador Leandro Gilio, do centro de estudos Insper Agro Global.

Como se proteger

Por ora, a recomendação é acompanhar de perto a evolução das chuvas no início da temporada. Além disso, o produtor pode se proteger com diferentes estratégias destacadas pelo Gigante 163 nas últimas semanas. Confira exemplos como manejo do rebanho sob calor extremo, a prevenção de incêndios rurais e o preparo do pasto.

Saiba mais:

El Niño 2026/27 – O fenômeno já está em curso e deve se fortalecer no segundo semestre. Em atualização divulgada em 9 de julho, a NOAA elevou para 81% a probabilidade de o evento atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, ante os 63% estimados em junho. Nesse patamar, ficaria entre os episódios mais intensos registrados desde 1950, ao lado de 1982-83, 1997-98 e 2015-16. No Centro-Oeste, a manifestação esperada é de chuvas irregulares e calor, com risco maior na virada da seca para as águas.

 

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