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Manejo e diversificação “blindam” pasto durante El Niño

Manejo e diversificação “blindam” pasto durante El NiñoManejo deve ser feito o ano inteiro para garantir resultados na seca. Foto: Embrapa

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Resumo:

  • O El Niño já está em curso e deve bagunçar as chuvas na virada da seca para as águas, o pior momento para o pasto no Centro-Oeste.
  • Para o pesquisador da Embrapa Luciano Bastos Lopes, o que sustenta o gado na seca não é o tipo de capim, mas o manejo feito antes: tratar a pastagem como uma lavoura.
  • Trocar capins antigos por cultivares modernas e consorciar capim com leguminosa eleva a produtividade, a lotação e a renda por hectare, segundo a Embrapa Cerrados.
  • Com a arroba do boi acima de R$ 350, errar o preparo do pasto sai caro: falta de pasto força venda ou compra de suplemento na pior hora.

Por André Garcia

Já em curso e com grande chances de ser forte, o El Niño traz incerteza ao campo no segundo semestre de 2026, bagunçando o regime de chuva bem na virada da seca para as águas — o pior momento para a pastagem. A transição vai exigir preparo dos pecuaristas no Centro-Oeste, que deverão contar com manejo, cultivares modernas e pasto consorciado para evitar prejuízo.

O primeiro passo é cuidar da área de pasto de forma planejada, buscando equilíbrio entre a produção do capim e a alimentação dos animais, sem degradar o solo nem a forrageira. Para o pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril Luciano Bastos Lopes, é esse manejo que vai garantir a resiliência da pastagem quando faltar água.

“A questão é manejar da forma mais adequada essa forrageira que já existe na propriedade, seja ela qual for. Todas elas têm um padrão de altura de entrada de pastejo, altura de saída de pastejo, ajuste dessa carga animal nessas áreas de pasto”, disse em entrevista ao Gigante 163.

O pacote de cuidados inclui adubação e correção do solo e deve ser adotado o  ano inteiro, não só quando a estiagem aperta.

“É preciso tratar a pastagem como se fosse uma lavoura. E o gado vai colher isso. A questão é fazer um manejo para que esse espaço produza massa e seja depois consumido pelos animais, junto com a suplementação, para compensar a queda no valor nutricional do período seco”, pontuou.

Pasto não pode ficar para trás

Aliada ao manejo, a genética das forrageiras também pode jogar a favor do produtor. É o que defende o pesquisador da Embrapa Cerrados, Marcelo Ayres Carvalho, ao apontar que “investir em sementes certificadas e em novas cultivares não é luxo, mas uma estratégia vital para a sobrevivência no mercado.”

Para ele, enquanto o rebanho evoluiu com tecnologias como inseminação artificial, vacinas e suplementação estratégica, as pastagens permanecem ancoradas em gramíneas do século passado, como as braquiárias tradicionais e o Panicum maximum.

“Hoje, temos mais de 15 cultivares de gramíneas e leguminosas forrageiras com genética avançada, desenvolvidas pela Embrapa e instituições parceiras. Elas oferecem maior produtividade, qualidade nutricional e resiliência climática”, explicou em artigo publicado recentemente.

A BRS Zuri, por exemplo, garante mais de 50 quilos de boi por hectare ao ano, o que, em seis anos, representa cerca de R$ 6 mil a mais por hectare, ou uma arroba extra por hectare.

Capim e leguminosa, lado a lado

Para fechar a blindagem de prejuízos, a aposta é diversificar: em vez de plantar só capim, o pecuarista pode acrescentar as leguminosas ao pasto. Elas  funcionam como um banco de proteína no pasto e, dependendo da espécie, apresentam melhor adaptação à seca.

Segundo a Embrapa, esse tipo de consórcio pode aumentar a lotação do pasto de 20% a 30%. Além disso,  a prática reduz a conta do adubo, porque a leguminosa fixa nitrogênio no solo e devolve parte do que o capim sozinho exigiria em fertilizante.

“Pecuaristas que diversificam e modernizam suas pastagens produzem rebanhos mais eficientes e garantem lucros estáveis. O Brasil, líder em pecuária tropical, merece pastagens à altura do seu boi moderno”, avalia Marcelo.

O erro que pode custar caro

A atenção  sobre  os impactos do El Niño na forragem foi reforçada em relatório do Cepea publicado no dia 12 de junho. O documento destaca que a necessidade de suplementar o rebanho pode aumentar nos próximos meses, o que pode comprometer as contas de quem não se preparou com antecedência.

O mercado também já vem reforçando o alerta. O Indicador do Boi Gordo Cepea/Esalq estava em R$ 353,15 por arroba em 8 de junho de 2026. Ou seja, com a arroba em patamar elevado, decisões de venda ou retenção motivadas por falha de pasto podem ampliar a volatilidade dos preços.

Saiba mais

O que esperar do El Niño 26/27

O fenômeno já está em curso, em intensidade fraca no momento, mas com previsão de fortalecer ao longo do segundo semestre. A probabilidade do El Niño persistir fica entre 97% e 99% em todos os trimestres até o verão de 2027, o que torna a ocorrência praticamente certa. E há 63% de chance de ele atingir intensidade “muito forte” entre novembro e janeiro — o que o colocaria entre os episódios mais intensos desde 1950, ao lado de 1982-83, 1997-98 e 2015-16.

 

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