Resumo:
- A cobertura do seguro rural subvencionado deve cair para 2,69 milhões de hectares em 2026.
- A queda resulta de bloqueios e cancelamentos no orçamento para cumprir metas fiscais.
- Com o orçamento integral de R$ 1,01 bilhão aprovado pelo Congresso, a cobertura poderia chegar a 5,79 milhões de hectares.
- O encolhimento coincide com um ano de El Niño, que eleva o risco climático.
Por André Garcia
Em ano de El Niño, o Brasil vai começar a safra 2026/2027 com uma das menores fatias de área agrícola protegida por seguro rural subvencionado desde que o programa foi criado, em 2006. A queda coincide com um momento de alta nos custos, como o provocado pela escassez de fertilizantes e o alto endividamento do setor.
A redução amplia uma lacuna que já é expressiva: nos últimos três anos, desastres climáticos custaram ao País cerca de R$ 60 bilhões anuais, com apenas 15% do prejuízo coberto por seguro. Com menos verba para as apólices, essa fatia desprotegida tende a aumentar em um ano de maior risco climático.
Para o presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, Daniel Nascimento, o momento é especialmente sensível.
“Os fenômenos climáticos extremos já fazem parte da realidade da agricultura brasileira e, por isso, precisam ser incorporados ao planejamento das políticas públicas”, explica. “O novo bloqueio de recursos do PSR evidencia um problema que há anos compromete a expansão da proteção no campo: a falta de previsibilidade orçamentária”, acrescenta.
Cobertura encolhe 80% em cinco anos
Os efeitos dessa instabilidade já aparecem na evolução da área protegida. Em nota técnica publicada em junho, o Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro mostra que a cobertura do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) atingiu o pico em 2021, com cerca de 13,7 milhões de hectares, e recuou ano a ano desde então: 7,6 milhões em 2022, 6,6 milhões em 2023, 7,5 milhões em 2024 e cerca de 3,3 milhões em 2025.
Para 2026, com os cortes já aplicados, a projeção é de 2,69 milhões de hectares, o equivalente a 2,78% da área plantada. A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) já havia descrito a cobertura de 2025 como a menor parcela da área plantada desde 2006. Em cinco anos, a área protegida encolheu cerca de 80%.
“O Brasil já protege uma parcela reduzida de sua área agrícola, e a continuidade dos bloqueios dificulta o avanço de uma política pública essencial para a segurança alimentar, a estabilidade da renda no campo e a resiliência do agronegócio brasileiro”, avalia Nascimento.
Cortes reduzem a cobertura pela metade
A FGV calcula dois cenários para 2026. Com os bloqueios e cancelamentos em vigor, a cobertura fica em 2,69 milhões de hectares, ou 2,78% da área plantada. Com o orçamento integral aprovado pelo Congresso na Lei Orçamentária Anual, de R$ 1,01 bilhão, chegaria a 5,79 milhões de hectares, ou 5,96%.
Na prática, os cortes derrubam pela metade a proteção que o programa poderia oferecer no ano. A importância segurada projetada para 2026 fica em cerca de R$ 14,8 bilhões.
O encolhimento é resultado de uma sucessão de decisões orçamentárias. O valor de R$ 1,01 bilhão previsto na LOA sofreu um bloqueio de R$ 461,7 milhões em maio, ao qual se somaram cancelamentos.
O mais recente, de cerca de R$ 56 milhões, remanejou recursos da subvenção do seguro para uma ação de fomento que financia máquinas, implementos e infraestrutura rural, de finalidade distinta da transferência de risco climático. Há ainda R$ 141 milhões em subvenções de 2025 não pagas às seguradoras.
Com isso, o orçamento operacional efetivo do PSR para 2026 cai para cerca de R$ 473,8 milhões, abaixo do registrado em 2025 e entre os piores da série histórica.
Do seguro ao crédito
A retração da cobertura não fica restrita ao produtor. Como instituições financeiras usam o seguro rural como mitigador de risco na concessão de crédito, sua escassez reverbera por toda a cadeia. Quando o seguro fica mais caro ou indisponível, o crédito tende a acompanhar, e o custo de não prevenir reaparece depois em renegociações, prorrogações e recuperações judiciais.
“A seguradora não sabe se haverá orçamento suficiente e incorpora risco institucional ao preço. O banco perde um mitigador de risco relevante para o crédito rural”, aponta a nota da FGV.
O setor acompanha a tramitação no Congresso do Projeto de Lei nº 2.951/2024, que busca modernizar o marco legal do seguro rural e dar mais estabilidade e previsibilidade aos recursos, incluindo a ideia de blindar a subvenção contra contingenciamentos.
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O impacto do El Niño sobre o agro
O contexto climático dá peso adicional ao alerta. A nota da FGV registra que o El Niño já está presente no Pacífico Equatorial e deve se fortalecer ao longo de 2026, elevando a necessidade de instrumentos preventivos para a safra de verão.
O fenômeno costuma intensificar a estiagem e os veranicos no Norte, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste e do Sudeste, prejudicando o plantio de culturas de sequeiro como soja e milho, e pode trazer excesso de chuva ao Sul.
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