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El Niño pode derrubar até 20% da safra de soja; veja o que dizem especialistas

El Niño pode derrubar até 20% da safra de soja; veja o que dizem especialistasFenômeno impacta regiões de formas diferentes. Foto: Imea

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Resumo:

  • A safra 2026/27 pode perder até 20% da produção nacional de soja, se a falta de chuva se ampliar no Centro-Oeste e no Matopiba, projeta Eduardo Martins, do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), tomando a safra 2015/16 como base.
  • O pesquisador Eduardo Assad, do Observatório de Bioeconomia do FGV Agro, trabalha com número menor: nos El Niños de 2015 e de 2024, a perda chegou a 10% da safra.
  • Em 2024, cerca de 2,9 milhões de hectares (ha) precisaram ser replantados por causa das condições climáticas, segundo o FGV Agro.
  • A NOAA mediu 1,3 ºC de anomalia na região Niño 3.4 na última atualização, o que classifica o fenômeno como moderado neste momento, com pico previsto entre novembro e janeiro de 2027.
  • O risco central para a soja está no calendário: semeadura tardia comprime a janela do milho segunda safra, normalmente semeado entre fevereiro e março.

O El Niño que começou em junho deve atingir o pico entre novembro e janeiro de 2027, em cima da janela de plantio da soja. Com o calendário apertado, a safra 2026/27 pode sofrer perdas de até 20% se a falta de chuva se ampliar sobre o Centro-Oeste e o Matopiba.

É o que projeta Eduardo Martins, do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), um dos especialistas ouvidos em publicação do Valor Econômico. Diante do avanço do fenômeno, pesquisadores, agrometeorologistas e analistas de mercado alertaram para o risco de atraso no plantio e de perda de produtividade.

“Se a falta de chuva for ampliada, pegar o Matopiba [confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia], que é mais exposto ao clima, tem solos mais arenosos, e o Centro-Oeste, há possibilidade de 20% de perda a nível nacional, pegando a safra 2015/16 como base”, estima Martins.

Para Eduardo Assad, pesquisador do Observatório de Bioeconomia do FGV Agro, episódios recentes servem de base para dimensionar o risco. Segundo ele, em 2015 e em 2024, o fenômeno provocou perda de até 10% da safra.

Fenômeno ainda é moderado, mas acelera

Na última atualização da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a região Niño 3.4 marcava 1,3 ºC acima da média. Esse patamar caracteriza o El Niño como moderado neste momento. Contudo, os modelos projetam intensidade muito forte entre novembro e janeiro de 2027.

“Ele está evoluindo muito rápido, as temperaturas estão aumentando bastante na região do Niño 3.4, principal referência global para monitorar o fenômeno”, avalia Ana Maria Heuminski de Ávila, agrometeorologista do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp.

Na prática, segundo ela, isso eleva a probabilidade de eventos extremos, mas não implica impacto de mesma intensidade em todas as regiões.

Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), associa a frequência maior ao aquecimento global.

“O El Niño é um fenômeno recorrente, a questão é que ele está se tornando cada vez mais recorrente. Nos últimos 60 anos, houve mais casos do que nos 60 anteriores, e mais intensos”, afirma.

Atraso na soja encurta o milho

Para Guilherme Bastos, coordenador do FGV Agro, o risco principal para a oleaginosa não está no volume total de chuva, e sim na distribuição. A irregularidade no início da temporada atrasa o plantio ou exige replantio.

O precedente é recente. Em 2024, também ano de El Niño, cerca de 2,9 milhões de hectares (ha) precisaram ser replantados por causa das condições climáticas.

Semeadura tardia da soja empurra a colheita e comprime a janela do milho segunda safra, normalmente semeado entre fevereiro e março. Nesse cenário, o produtor perde nas duas lavouras.

“Se vier um atraso no plantio, mas em seguida o clima der condições para a semeadura, não haveria grandes danos à produtividade”, pondera Ana Luiza Lodi, analista de inteligência de mercado da StoneX.

Brasil e Argentina puxam o preço

Diante disso, uma quebra relevante nas lavouras de soja do Brasil e da Argentina apertaria os balanços local e global e tenderia a puxar os preços para cima, num momento de demanda firme, sobretudo para biocombustíveis.

Outras culturas entram no mesmo cálculo. Há risco para a floração de café e de citros, enquanto a cana-de-açúcar pode se beneficiar de precipitações no Sudeste.

Para quem planta soja, o valor prático da informação está na antecipação: revisar cronograma de semeadura, dimensionar semente para eventual replantio e travar a estratégia de comercialização antes do pico do fenômeno custa menos do que reagir em janeiro.

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