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Dia do Cerrado: futuro da soja depende da conservação do bioma

Dia do Cerrado: futuro da soja depende da conservação do biomaProdução pode ser ampliada sem novas conversões de vegetação. Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília

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Resumo:

  • Cerrado tem cerca de 7,4 milhões de hectares recomendados para expansão agrícola sem conversão de vegetação nativa, o equivalente a 47% das áreas identificadas com esse potencial no Brasil.
  • Bioma perdeu mais de 540 mil hectares de vegetação nativa em 2025, mesmo com uma redução de cerca de 17% no desmatamento em relação ao ano anterior.
  • Soja é apontada como o principal vetor de desmatamento no Cerrado, com pelo menos 260 mil hectares de vegetação nativa convertidos para o cultivo do grão em 2022.
  • Produtores podem ampliar a produtividade sem abrir novas áreas, com estratégias como integração lavoura-pecuária-floresta, cobertura do solo, bioinsumos e certificações.
  • Mercados consumidores ampliam as exigências sobre a origem da soja, com a União Europeia restringindo produtos ligados ao desmatamento e a China avançando na verificação da legalidade da produção.

 

Por André Garcia

Celebrado nesta sexta-feira, 11/9, o Dia do Cerrado chama atenção para um bioma que concentra parte importante da produção brasileira de grãos e segue sob pressão do desmatamento. Em 2025, foram perdidos mais de 540 mil hectares de vegetação nativa, 55% de toda a área desmatada no País.

Ao mesmo tempo, há espaço para ampliar a produção sem novas conversões. Estudo citado pela coordenadora do Soja na Linha, do Imaflora, Caroline Anelli, aponta 15,7 milhões de hectares no Brasil recomendados para expansão agrícola sem abertura de vegetação nativa. Desse total, 47%, cerca de 7,4 milhões de hectares, estão no Cerrado.

Em entrevista ao Gigante 163, Caroline explica os limites para a expansão da soja no bioma, por que a Moratória da Soja não chegou ao Cerrado e como produtividade, remuneração pela vegetação conservada e novas exigências de compradores entram na conta do produtor. Confira:

Hoje existe algum controle sobre a expansão da soja no Cerrado?

Setorialmente, não existe um controle sobre a expansão da soja no Cerrado. O que existe são os instrumentos de regulamentação sobre a abertura de novas áreas, como o licenciamento ambiental, as autorizações de supressão de vegetação (ASV) e a fiscalização por órgãos estaduais e federais, que permitem o controle da abertura dentro das regras do Código Florestal. Em 2025, o Cerrado perdeu mais de 540 mil hectares de vegetação nativa, uma redução de cerca de 17% em relação ao ano anterior, mas ainda corresponde a 55% de toda a área desmatada no Brasil, sendo que cerca de 70% desse desmatamento ocorreu no MATOPIBA, de acordo com dados do MapBiomas. Olhando especificamente para a soja, as análises indicam que em 2022 pelo menos 260 mil hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja. Ou seja, podemos concluir que o cultivo de soja é o maior vetor de desmatamento no bioma.

O que pode ampliar esse controle? E por que as barreiras no Cerrado são mais fracas que na Amazônia?

O que pode trazer maior controle para essa expansão são compromissos assumidos por mercados consumidores, como na Europa, com a EUDR, que estabelece que nenhum produto – incluindo a soja e seus derivados – que entre no mercado europeu pode ter sido cultivado em áreas desmatadas após 2020. Além disso, cada empresa possui seus próprios compromissos para mitigar o desmatamento dentro da sua cadeia de fornecimento. Dessa forma, produtores que desejam comercializar com mercados específicos devem adequar sua produção. E a demanda desses mercados não é uma questão arbitrária, a própria sociedade brasileira entende que a conservação dos nossos biomas é importante e vê com preocupação os impactos da crise climática. Isso responde em parte a segunda questão: houve expansão do cultivo de soja na Amazônia durante a vigência da Moratória da Soja, mas ela se deu sobre áreas abertas antes de 2008. Foi uma expansão melhor ordenada porque a sociedade civil pressionou pela conservação da floresta, e o público em geral tem maior consciência sobre a importância da Amazônia. A mesma coisa precisa acontecer no Cerrado, precisamos que mais pessoas entendam a importância desse bioma, inclusive os próprios produtores.

Na sua opinião, por que a Moratória nunca foi estendida ao Cerrado em 20 anos?

Houve um movimento importante para expandir a Moratória ao Cerrado, especialmente entre 2016 e 2017, mas não se alcançou o consenso necessário entre os diferentes atores da cadeia. Acredito que fatores políticos, econômicos e institucionais contribuíram para isso.

Um aspecto relevante nessa discussão é a perspectiva dos produtores. No Cerrado, um acordo dessa natureza precisa considerar a realidade produtiva, os direitos de uso da terra previstos na legislação, os custos de oportunidade da conservação e a necessidade de incentivos e mecanismos de reconhecimento para quem mantém a vegetação nativa.

Além disso, ainda há pouca disseminação de informações sobre a importância ambiental e climática do Cerrado. A experiência indica que qualquer avanço nessa agenda depende de diálogo e construção conjunta entre empresas, produtores, sociedade civil e poder público, combinando compromissos de mercado, políticas públicas e incentivos econômicos à conservação.

No Cerrado, boa parte da conversão é legal: a reserva legal é de 20% a 35%, contra 80% na Amazônia. Se o produtor está dentro da lei, qual é o argumento para ele não abrir?

Pelo menos metade da área aberta (51%) no Cerrado não é comprovadamente legal. Podemos destacar que cada vez mais mecanismos financeiros e políticas públicas estão olhando para essa demanda dos produtores por remuneração de excedentes de vegetação nativa, como o PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), mas vale destacar que o produtor possui diversas formas de aumentar sua produtividade sem necessitar da abertura de novas áreas, como práticas de integração lavoura-pecuária-floresta, manutenção da cobertura do solo, utilização de bioinsumos, entre outros, além da adoção de certificações reconhecidas como a RTRS e a ProTerra.

O mais importante é que compreendamos essas porcentagens estabelecidas pelo Código Florestal como o limite máximo de abertura dentro da propriedade. Isso não significa que toda propriedade atingirá a porcentagem máxima, pois outros fatores ambientais deverão ser avaliados, como a existência de nascentes e as características fitofisionômicas da vegetação. No contexto atual, qualquer desmatamento traz impactos negativos em termos climáticos e hídricos. Portanto, essas questões devem ser consideradas pelo produtor ao avaliar os custos a longo prazo da abertura de uma nova área, mesmo que dentro da lei. Um estudo do IIS (Instituto Internacional para Sustentabilidade) identificou 15,7 milhões de hectares de áreas no Brasil recomendadas para a expansão da agricultura, sem a necessidade de conversão de vegetação nativa, sendo que 47% dessas áreas encontram-se no Cerrado. Ou seja, tem espaço para diversificarmos a produção agropecuária e até expandir a produção de grãos sem a necessidade de converter a vegetação nativa.

Pensando em regulação do clima, água e chuva, o que o Cerrado em pé faz pela lavoura?

Além de ser a savana mais biodiversa do mundo, o Cerrado é conhecido como a “caixa d’água” do Brasil, pois suas nascentes alimentam algumas das principais bacias hidrográficas do país, e seu solo concentra mais de 8 gigatoneladas de estoque de carbono. Ou seja: primeiramente, a conservação do Cerrado é fundamental para o ciclo hidrológico e a disponibilidade dos recursos hídricos. Não se trata apenas de proteger as áreas próximas às nascentes, mas a vegetação nativa garante a saúde do solo e a infiltração dessas águas. Em segundo lugar, a abertura da vegetação nativa liberaria quantidades imensas desse carbono que hoje está estocado, agravando ainda mais a concentração de carbono na atmosfera, o que leva à elevação das temperaturas e todas as consequências que isso gera para o clima. Já temos sentido essas consequências nas secas mais frequentes, enchentes mais extremas, áreas que antes eram úmidas agora estão mais suscetíveis ao fogo. Mesmo que o produtor não veja diretamente o impacto da vegetação vizinha na sua plantação, ele sente esses impactos acumulados, e em casos extremos há perda de safra e o aumento da demanda por seguro rural.

Do ponto de vista do mercado, o que o comprador de soja exige hoje sobre origem no Cerrado?

O mercado europeu exigirá, a partir de 2027, com a implementação da EUDR, que toda soja e seus derivados importados não sejam provenientes de áreas desmatadas após 2020 (legal e ilegalmente); e o mercado chinês tem se movimentado para estabelecer critérios de verificação da legalidade na origem da soja, ou seja, a princípio permitindo soja cultivada em áreas abertas legalmente. Ambos os mercados citados se preocupam com a diminuição das suas emissões de carbono até 2050, e para isso consideram a descarbonização de suas cadeias, incluindo produtos importados. O governo chinês se preocupa muito com a segurança alimentar da população, incentivando soluções para a produção de grãos e ração animal dentro de seu próprio território.

Que iniciativa você destaca que junte conservação e retorno para o produtor?

Uma iniciativa que tem apresentado resultados é o Programa Conserv, do IPAM, que prevê remuneração pela manutenção de áreas de vegetação nativa para além da Reserva Legal (PSA). A Agrotools tem trabalhado na implementação de uma plataforma para PSA também. Mas para além da lógica do PSA, como mencionei anteriormente, existem produtores obtendo ganhos de produtividade através de técnicas agrícolas mais ou menos simples – desde agricultura de precisão até o uso de palhada para manutenção da umidade do solo. Uma agricultora recentemente ganhou um prêmio pelos resultados alcançados através dessas técnicas.

 

Saiba mais

O que é a Moratória da Soja –A Moratória da Soja é um acordo criado em 2006 para restringir a compra de soja cultivada em áreas desmatadas na Amazônia após uma data de corte estabelecida pelo compromisso. O mecanismo utiliza monitoramento por imagens de satélite e outros dados para verificar a origem da produção. O acordo é uma iniciativa do setor privado e estabelece critérios de comercialização que vão além das exigências previstas na legislação ambiental.

 

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